Trecho #4

“tem ainda essa visão um pouco decorativa da arte”_

O trecho dessa edição traz um fragmento da conversa com Terra Assunção sobre a arte, sua função e seu entrelaçamento com movimentos sociais.

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Neilton: Sobre essa questão da arte nos Coletivos, Movimentos Sociais e Militância. Como que você vê a junção dessas coisas...
Terra: Você fala específico do Duas Cabeças ou no geral?
Neilton: No geral mesmo.

Terra: Eu acho que, tipo assim, muitas vezes as pessoas que tão no movimento social e tal têm ainda essa visão um pouco decorativa da arte, como algo que vai enfeitar ali. E eu acho que acaba desviando, às vezes, o propósito de fato da produção cultural, da produção artística. Então eu vejo em todo lugar que tem um Coletivo, seja um coletivo de fato lgbtqia+, um coletivo negro, um unicamente partidário, eu vejo que todo mundo se usa da linguagem da arte no geral pra comunicar, pra poder atrair outras pessoas. Todo mundo usa assim. Se tem um coletivo, ele usa da linguagem cultural, da linguagem artística. Porém, eu acho que existe essa visão ainda um pouco romantizada, de não compreender a fundo aquilo. Só como uma decoração. Ou só como algo que vai chamar ali as pessoas pra aquele espaço e que quando chegar, quando for “realmente sério”, é a teoria tal, é o livro tal. Então é como se fosse uma brincadeira pra poder atrair as pessoas e quando chegar lá realmente não é assim.
E muitas vezes eu tenho essa visão disso. Mas claro que não são todos os Coletivos e tal. E entendo também que tem limitações pessoais, eu acho que ninguém é obrigado a entender sobre arte. Não acho que todo mundo tem que entender isso a fundo, essa função da arte. Mas no geral eu tenho essa impressão.
Claro que é existem os coletivos artísticos, que já tem outra visão sobre a arte e tal. Mas isso são coletivos bem específicos.

Neilton: Você tem alguma referência que traz pra você enquanto artista, enquanto militante? Que faz esse entrelaçamento.
Terra: Ai, eu precisaria pensar. Mas não é nem um exemplo prático, acho que é outra forma de ler, de ver a arte. De valorização mesmo desse trabalho. Por exemplo, já fui há alguns lugares que tinha um trabalho de uma galera do MST que eu achava que tinha uma proposta interessante. Às vezes nem era puramente artístico, mas, por exemplo, a arte ligada à educação, coisas da escola rural, escola nessa formação do acampamento. Tinha arte ali, tinha uma concepção muito importante de linguagem.

Mesmo assim, algumas coisas que as pessoas criticam. Falando de um movimento específico, por exemplo, que é o Levante (Popular da Juventude). Uma coisa que a galera fala muito mal é das místicas né. A galera “ah, tá fazendo mística, achando que vai mudar alguma coisa”. Eu acho que é uma visão muito preconceituosa, bem errônea assim. Eu acho que tem uma função social. Sei lá, teatro do oprimido que tinha essa visão de um teatro social.
E esse próprio pensamento decolonial. Eu acho que me guia muito. É esse pensamento da visão da arte com esse objetivo social presente. Não de maneira panfletária, que eu acho que é outro clichê que a gente tem que ultrapassar. Muita gente fala “ah, tem que inventar uma arte, sobre sei lá, lgbtfobia”. Então faz um cartaz escrito “Pare com a Lgbtfobia”. Às vezes é uma coisa meio clichezona assim. Eu acho super de boas, mas tem como produzir muita coisa interessante sem ser clichê. Falando, por exemplo, por meio da linguagem audiovisual em todos esses espaços, em coletivos também. Que às vezes não vai tocar em questões políticas diretamente, mas lógico que é também político.

[...]

texto: terra assunção, artista;
foto: IV Seminário Nacional “MST e a Cultura” Leonardo Fernandes (via mst.org.br)

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