Trecho #1

“se assumir como uma pessoa que tem desejo é uma coisa que não pega bem para as mulheres no geral”_

O trecho dessa edição traz um fragmento da conversa com Daniela, integrante do Coletivo Duas Cabeças. Falamos sobre o ser mulher e heterossexual no espaço de um coletivo de diversidade — e também as (im)possibilidades de se assumir como sujeita de desejo.

[...]
Neilton: Naquela época, em 2014 e antes, eu sinto que se você fosse heterossexual e entrasse num coletivo de diversidade sexual e de gênero não causava tanto espanto quanto causaria hoje em dia.
Daniela: Eu acho que sim, com certeza. Hoje a coisa mudou bastante né. Acho que ali em 2013 já estava, já tinha começado um pouco. Lembro que, não sei se os meninos te falaram sobre isso, mas isso aconteceu. Não no meu caso. Ninguém nunca me acusou de nada. Eu acho que isso tem muito a ver também com as fronteiras onde eu habito. Acho que você acusar mulheres, no meu caso mulher negra, de coisas ruins é uma coisa que no geral não se faz num movimento social. Não é de bom tom você fazer isso. Mas como os meninos eram homens, eles sofreram algum tipo de crítica assim.

Neilton: Em que sentido?
Daniela: Algumas pessoas acharam que era muito masculinizado. Muitas pessoas acusaram eles de usarem outras identidades como espécie de figurinha, que não necessariamente eles lutassem por aquela causa. O que eu já deixo aqui declarado que era uma coisa injusta. Não porque eu conheça eles pessoalmente. Mas também porque eu conheço pessoalmente, sei que não era isso. Era mais uma noção de um coletivo que de uma luta específica. Era um Coletivo de muita amizade. Fazer piquenique, ir no cinema junto, uma história pra além só de militância, sabe! Era um pouco injusto fazer esse tipo de acusação que realmente não acompanha as pessoas que faziam parte do coletivo.

Neilton: E sobre ser hétero...
Daniela: Eu acho que não tinha tanta crítica. Eu acho que era um setor muito pequeno que reclamava sim. Mas comigo especificamente não acontecia. De falar “ah, você é hétero, você não deveria compor esse espaço”, nunca aconteceu. Inclusive porque acho que era um pouco isso assim. Sempre nesses debates mais feministas ou a ver com raça me deixavam falar como uma pessoa que também pode compor. Mas não rolava não essa coisa de “ah, você tá roubando o protagonismo” ou “ah, você não faz parte disso”. Isso nunca aconteceu não.

Neilton: Duas cenas me vêm à mente. Eu vou contar e você me diz o que vem pra você. A primeira é do filme Com amor, Simon, de 2018.
Daniela: Eu assisti...

Neilton: Então, aquela cena em que o Simon se questiona de ter que assumir e começam a passar vários flashs imaginários dos amigos se assumindo héteros para a família.

trecho 01 .jpg

Neilton: E a segunda é mais pessoal, uma cena de uma amiga me falando que muitas coisas que eu passei quando criança por ser gay, ela também passou por ser mulher. Digo, esse tabu de sentir desejo, de iniciar vida sexual e tal. Queria saber como você pensa isso...
Daniela: Eu acho que sempre pensei que era muito confortável pra mim ser hétero. Eu sei pra mim é um conforto. Conforme eu fui vivendo com outras pessoas de sexualidades diferentes eu vi como isso era de fato um privilégio. Enquanto mulher eu não sinto, mas acho que tem a ver com o ambiente que eu vivo hoje. O ambiente acadêmico é muito mais liberal pra você falar de praticamente tudo. Mas como eu cresci num lar evangélico, com certeza essas questões da sexualidade eram completamente diferentes. Não eram tratadas na mesma naturalidade que se trata no nível universitário. E eu acho que, como eu sempre fui uma mulher... não sei... não sei se é porque eu falo bastante, ou se é porque eu uso muita calça jeans, eu não uso salto. Mas minha sexualidade sempre foi interpretada de maneira diferente.

Neilton: Como assim?
Daniela: As pessoas sempre acham que eu sou lésbica ou bissexual. Sempre me interpretam assim. Então acho que pra mim isso é algo que eu não sei se isso é tanto uma questão. Se realmente é uma grande questão. Acho que por um lado eu percebo que eu tenho muita liberdade mesmo. Liberdade pra falar muita coisa, pra fazer muita coisa. E eu sei que isso é pra mim um certo privilégio, é ter mais segurança nos lugares por onde você anda e tudo mais. Agora, como mulher, não sei. Acho que as questões sobre ser mulher continuam as mesmas que outras mulheres vivem mesmo. Assim, medo de assédio. De repente, no ambiente acadêmico uma competitividade com os homens que é complicada. Enquanto sexualidade eu não sei se eu já vivi alguma coisa. Nada além de mais engraçado. Que é isso que estou falando assim. Como as pessoas sempre me interpretaram como lésbica, várias vezes já aconteceu de alguém falar “ah, e você?” e eu responder que sou hétero e a pessoa fazer uma cara de... “tem certeza?”. Isso já aconteceu algumas vezes assim. Outras vezes de maneira não tão sutis assim. Como já aconteceu uma vez de uma professora dizer que eu era “sapatão e não sabia”. Mas isso de verdade, não me ofende. Porque acho que é um pouco isso da certeza que a heterossexualidade dá pra gente. É uma coisa muito... eu não tenho dúvida. Eu acho que nunca tive dúvida sobre a minha sexualidade. Acho que é uma coisa que as pessoas LGBT passam por esse momento, né. Porque você não tem o mesmo tipo de demonstração afetiva que tem no mundo hétero, que é o tempo todo. Qualquer filme que você assiste, qualquer série, ligou a televisão, num livro. Enfim, tudo a gente é informado por um mundo heterossexual. Então acho que você passar por um momento de certa insegurança, eu acho que é completamente parte desse mundo. Agora como pessoa hétero eu nunca tive dúvida da minha sexualidade. Nunca foi uma questão nesse sentido. Sempre foi uma coisa que tava ali né, uma construção que é praticamente dada. As dúvidas não vêm assim. Realmente eu acho que é muito diferente. Não sei se respondi aquela tua pergunta...

Neilton: É eu quis trazer só as cenas mesmo. Mas eu fiquei pensando, numa possibilidade de elaboração, se existe alguma coisa no campo de construção do ser mulher, da sexualidade do ser mulher, que passa geralmente por uma questão de se assumir como uma pessoa que sente desejo...
Daniela: É, talvez. Hoje tá um pouco mais difícil de pensar essa experiência porque eu já vivo nesse mundo liberado há um tempo. Mas eu acho que talvez assim, numa volta pra casa é um pouco difícil. Quando eu vou pra minha casa e escuto minha mãe falar algumas coisas, eu fico assim “ué, não tem nada a ver!”. Então eu acho que sim. Se assumir como uma pessoa que também tem desejo acho que com certeza. Para as mulheres isso com certeza também é verdade. Se assumir como uma pessoa que tem desejo é uma coisa que não pega bem para as mulheres no geral. A ideia de castidade se tornou um ponto positivo para as mulheres, isso de ser pura e coisas desse tipo. Realmente são qualidades quando se fala de mulheres, e negativas quando se fala de homens. Mas eu acho que nesse ponto, com certeza. Tem sim.

Neilton: Um processo também, né...
Daniela: É, os ambientes que você pode falar sobre isso geralmente são ambientes de descobertas. Então, coletivos feministas são importantes pra isso. Você descobre que as pessoas falam de várias coisas que você não falava antes. Eu acho que é uma experiência verdadeira. Mais que só falar de opressão nesses espaços, mas também falar de desejo é uma coisa super importante. E aí acho que nesse sentido você tem razão, que acontece sim. Eu só não saberia te dizer assim mais especifico. Acho que precisaria de mais minúcia pra explicar assim essa relação. Eu não saberia te dizer. Até porque estou afastada dessa literatura faz bastante tempo.
[...]

texto: daniela amorim.
ilustração: neilton dos reis.