Trecho #2

“os espaços públicos, as ruas, as praças ainda são espaços em que o preconceito existe”_

O trecho dessa edição traz um fragmento da conversa com Roney Polato, professor da Faculdade de Educação da UFJF. Falamos sobre a cidade de Juiz de Fora, seus espaços, heterotopias as (des)ocupações da diversidade.

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Roney: Juiz de Fora de forma geral é muito resistente às questões lgbt. Nós tivemos durante algum tempo um movimento social que era um pouco mais presente, mais atuante. Que era o MGM (Movimento Gay de Minas). Que promovia as Paradas do Orgulho, e que promovia o Rainbow Fest — que eram alguns eventos artísticos, culturais, palestras, seminários. Inclusive os seminários com o tempo fora acabando e foram ficando só as festas e a Parada. Depois a Parada deixou de acontecer também. Isso foi se perdendo. O próprio MGM foi diminuindo as suas ações, de modo que hoje tem uma ação bastante reduzida na cidade. Já trabalhei em alguns momentos em parceria com o MGM, em algumas ações de formação de professores especialmente. Mas isso depois não teve continuidade. O MGM pautava alguns das suas ações de formação e até essa em relação à Semana Rainbow e à Parada, em editais do Ministério da Saúde, do Ministério do Turismo e depois esses editais foram se restringindo, foram ficando cada vez mais restritos. Então os eventos deixaram de acontecer.

O que acontece é que a Parada e a própria Lei Rosa, que é a lei que institui o combate à discriminação em determinados ambientes da cidade, cria uma aura, uma ideia de que Juiz de Fora é uma cidade que acolhe as pessoas lgbt. O que quem mora aqui há muito tempo como eu e atua nessas frentes, como eu faço, questiona um pouco essa ideia. Mas temos uma cidade que é relativamente pouco inclusiva em relação a essas questões. Fato é que, por exemplo, não vemos nenhuma política específica municipal para pessoas lgbt. Não temos um Conselho, não temos nenhum documento, não temos nenhuma política voltada para a promoção da cidadania lgbt. E a própria Câmara Municipal já demonstrou em vários momentos que é resistente às pautas lgbt.

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Em Juiz de Fora, em relação aos espaços públicos abertos à diversidade, eu não vejo que haja um lugar específico onde isso aconteça. Os espaços públicos, as ruas, as praças ainda são espaços em que o preconceito existe. Os espaços institucionais, também: escolas públicas, a própria Universidade, outros espações públicos.

Mas acabam sendo espaços de certa heterotopia, como dizia o Foucault. Ou seja espaços onde os usos que são pensados pra eles acabam sendo pensados de outros modo. Acho que especialmente as praças. A Praça Antônio Carlos, por exemplo, que é um espaço de encontro. E outros. A gente vê, por exemplo, os jovens se reunindo próximos a determinados bares de Juiz de Fora. Eu vejo isso especialmente no Centro da cidade. E ali concentra uma diversidade que não é necessariamente só de pessoas lgbt. Pessoas heterossexuais também, pessoas cisgêneras. Mas que, de certo modo, traz alguma diversidade. A gente tem alguns lugares que são consideramos um pouco mais, digamos, inclusivos. Não sei. Talvez eu não diria inclusivos. São alguns bares, algumas boates. Historicamente vem acolhendo essa pessoas, vem nos acolhendo E tentando manter um clima de diversidade
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texto: roney polato, professor.
foto: fernando priamo (via Tribuna de Minas).