Perfil #7

“sempre pensei numa dimensão mais institucional”_

O perfil dessa edição traz a narrativa de Daniela Amorim, integrante do início do Coletivo Duas Cabeças que trabalhou na Diretoria de Ações Afirmativas durante parte da sua graduação e conta essa experiência.

Eu comecei a participar das reuniões do coletivo. Meu namorado ia comigo. A gente participava junto ali. E muito na expectativa, daquele começo, de fazer um coletivo na época. Eu não participava de nenhum outro coletivo, nunca me enxerguei como uma militante, sempre pensei numa dimensão mais institucional. Pensava mais em acessar essas esferas da Universidade pra poder dialogar sobre os problemas dos alunos. Nunca tinha feito parte de nenhum movimento, só realmente no institucional. Trabalhei na Diretoria de Ações Afirmativas. Por ser heterossexual também nunca pensei que eu poderia ser uma militante. Na época a gente já estava muito sensibilizado com essa questão do local de fala, do protagonismo.

E a partir dali a gente começou a pensar como que a gente poderia trabalhar institucionalmente também, né. O que a gente poderia fazer enquanto alunos e exigir da Universidade? É daí que começam a surgir os trabalhos, um ativismo institucional.

Eu acho que trabalhar institucionalmente você começa a ver que existem muitas coisas que você acha que a instituição pode fazer e que, às vezes, não por falta de vontade... porque, por experiência, as funcionárias da DIAF são extremamente bem intencionadas. O Professor Julvan, que foi a pessoa com quem eu trabalhei, que era o novo diretor, também é uma pessoa extremamente bem intencionada. Só que eu acho que às vezes a Instituição ela não sabe o que fazer.

Se a gente enquanto Coletivo já não sabia bem o que fazer, a Instituição às vezes se sente exterior: “me falem vocês o que vocês acham”. Então às vezes ficam esperando as demandas dos coletivos, quando poderiam se mobilizar de outra forma.

Mas eu acho que a DIAF foi importante, sobretudo pra conseguir essa questão do nome social. Eu lembro que isso tava na época da Carol ainda e o tanto de e-mails e de ameaças que ela recebeu de pessoas que nem moravam em Juiz de Fora. E foi na gestão dela que começou também toda aquela campanha de cartazes na Universidade. Aqueles cartazes antes que eram praticamente informativos, eles não traziam campanhas da Universidade. Era só tipo assim: “bem-vindo à Universidade”. Quando a Carol entrou ela conseguiu colocar outras coisas ali. Eram cartazes formativos no sentido de: “existem professores negros aqui na instituição, mas sabe quantos? muito poucos”. Então isso foi um trabalho espetacular por parte da DIAF.

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E quando eu comecei a trabalhar lá, 2017, o Coletivo já tava um pouco menos atuante. Mas as campanhas foram poucas por parte institucional. Porque muda um pouco o foco. A Universidade tava passando por vários processo em relação à fraude nas cotas e isso tomou a pauta da DIAF. O professor Julvan ficava afogado com todo aquele trabalho de ver denúncias, montar comissões. Foram muitas denúncias. Eu acredito que ainda devam ser muitas.

Então acabou que a questão lgbt não ficou tão presente como essa questão das cotas. E acho que algumas eu acho que a Universidade achou que era suficiente. Você tinha a Semana Rainbow que virou um projeto institucional anual. E eu acho que isso, de certa forma, fez a Universidade sentir que ela já tava fazendo a parte dela.

Acho que outros tipos de ação e enfrentamento, não tava tendo tanto espaço. Até porque o Coletivo ficou reduzindo um pouco. E outras pautas foram surgindo. E outros coletivos também.

Eu comecei a dar uma afasta por uma questão de agenda pessoal. Uma questão de agenda acadêmica que acabou ficando mais apertada, fui fazer outros trabalhos de pesquisa, escrever o TCC. Então por isso acabei saindo.

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texto: daniela amorim