Perfil #4

“Donatela foi a minha experimentação artística e ativista”_

O perfil dessa edição traz a narrativa de César Dornelas, integrante do Coletivo Duas Cabeças, artista e drag queen Donatela.

No finalzinho do Coletivo Duas Cabeças, da minha participação no Coletivo, eu descobri uma outra vertente de arte. Por mais que eu estivesse envolvido em arte, com o teatro e o coral, desenho e essas coisas, já estava imerso em arte e tudo. Tanto é que eu quase fui fazer Artes e Design, e não Administração. Mas no finalzinho da minha participação no Coletivo eu descobri a arte drag. Eu conheci a arte drag, e de uma forma diferente. Diferente da que eu conhecia antes, que era só a drag de bate-cabelo. Eu conheci todas as possibilidades de drag possíveis e existentes até aquele momento. Óbvio que todas não, porque todas as possibilidades de drag é individual. Drag sendo uma performance de gênero, não tem como eu fazer uma performance de gênero igual a tua. Mas eu comecei a me interessar e me joguei. E aí nasceu Donatela.
E Donatela foi a minha experimentação artística e ativista. Onde eu brinco com os padrões estéticos e impostos de gênero. Tô lá montadona maquiada e tal, com minha barba grande, com meu peito peludo. E representando, de certa forma, uma sensualidade e questionando isso. Questionando isso. “Mas pera, que porra é essa aí? É homem? É mulher? O que que é?” É exatamente isso: todas as possibilidades de ser, de existir e de ocupar um corpo. Eu percebi isso como drag e fui entrando cada vez mais nesse universo.
Por mais que hoje eu tenha também percebido que tem outra forma de eu fazer isso artisticamente. Não só me conectando montada e dublando, que era o que eu mais fazia. E aí me descobri enquanto DJ. Aí eu comecei a trazer a presença de um corpo andrógeno em ambientes de discotecagem, ambientes de festa. Mas não numa performance, não me vendo dublando a música de 4 minutos. E sim sentindo toda a mensagem que eu vou passar através da discotecagem, através das músicas que escolhi e tudo mais.

A arte drag chegou em 2016, no começo. Eu ainda tava no Coletivo. E aí o Lucas Ferreira, que faz a Lucy, era do Coletivo também na época e ele fazia drag já. E aí eu falei assim: “cara, como assim tu é drag? Você não tá de peruca, você não tira tua barba, você tá todo esquisitona. Como que você é drag?”. Aí ele me apresentou todas as possibilidades de drag. Eu comecei a buscar informações também. E comecei a sair montada junto com ele. E aí junto com ele, saí mais uma penca de gente. Era eu; ele; o namorado dele na época; o Álvaro, que é a Babylônica; a Cora Braz; a Diva Latruque, que era o Léo, também muito presente no Coletivo; Gabriel Reis. O Thales também se montava de vez em quando.
E eu vejo Donatela como uma parte de mim. Eu não quero distanciá-la tanto assim. Quero deixar ela mais perto, com elementos mais presentes que reforçam que aqui também tá o César. Aqui também é o César.

texto: césar dornelas, artista.
ilustração: neilton dos reis, editor.

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