Perfil #1

“a gente acabou fazendo um nome, né!”_

O perfil dessa edição traz a narrativa de Michell Marques, integrante do Coletivo Duas Cabeças que conta como foi sua chegada e um pouco da sua participação naquele espaço.

Como que eu entrei no Coletivo? Então, eu ia fazer minha transição de gênero, ia começar a fazer, e uma amiga minha fazia a matéria do Roney. E ela se inteirou muito no assunto, a Mariane. Ela se inteirou muito. Até antes de mim, porque eu não queria me aceitar, enfim... Aí o jeito que ela arrumou de me ajudar foi isso: ela se inteirou muito no assunto e ela conheceu a Brune, conheceu a Bruna, e consequentemente conheceu o Coletivo.

Porque a Bruna falou: a gente tem o Coletivo, tem o Visitrans. E aí ela foi me falar disso. Ela me falou, “não, tem um lugar que é o VisiTrans, você pode ir nas reuniões com várias pessoas trans, e tem o Coletivo que é com o pessoal lgbt da Universidade, dá pra conhecer outras pessoas daqui de dentro”.

Aí o primeiro lugar que eu fui, que eu me interessei, foi o Coletivo. O VisiTrans não me interessava tanto porque ele era uma reunião que as pessoas iam conversar, meio pra desabafar, trocar ideia, e naquele momento ali eu não queria isso. Eu queria, sei lá, uma coisa mais solta assim. E no caso o Coletivo fazia o piquenique. Aí eu achei melhor: que fosse no piquenique e que não fossem todas as pessoas trans. Eu ia me sentir melhor assim naquele momento. Então eu fui no piquenique e conheci a galera do Coletivo. A partir daí eu comecei a frequentar o piquenique.

E como eu era da Universidade e os meninos também eram, eu comecei a me interessar pelo Coletivo em si, pela questão política. Comecei a participar de fato, à medida que eu fui fazendo a transição. Eles me ajudavam também com algumas questões, igual a questão de nome social. Eu meio que usei muito do Coletivo pra ter essa voz dentro da Universidade, pra chegar na DiAF e ficar enchendo o saco deles lá. Porque o nome social tinha que acontecer, não podia ser só uma notícia de jornal. Foi bem bacana nesse sentido. Me ajudou a ter essa força pra poder ir atrás das coisas que eu precisava ir atrás ali dentro da faculdade.

Mas foi assim: através de uma outra pessoa que me falou do Coletivo. Porque eu nem tinha noção que tinha um Coletivo lgbt na UFJF. Quando você não é lgbt meio que as pessoas não se inteiram muito. É mais quando a gente é que a gente sabe que essas coisas existem.

Eu lembro direitinho: na última Parada LGBT da cidade, daquelas grandes de ocupar a rua toda, eu fui com a bandeira trans nas costas, todo menininho novinho. Aquela carinha de 15 anos! E foi um grupinho. Eu lembro que eu encontrei a galera que participava do Coletivo na Parada e foi todo mundo.

E o que ficou assim de marca, acho que foi as coisas que foram feitas, encabeçadas pelo grupo. E vai ficar muito na nossa narrativa, de quem participou. A gente sempre vai falar: “ah, o Coletivo Duas Cabeças, na época que eu participava...”. Eu acho que entre a gente. Ou quem estuda mesmo e tá dentro da universidade, né!

A gente acabou fazendo um nome, né! Deu o nome a bicha! Porque realmente foram muitas coisas legais que foram feitas a partir do Coletivo. Ele veio de uma indignação, e ele nunca parou de se indignar. Sempre que tinha alguma treta, tava a gente lá do Coletivo enfiada no meio.

E essa era a ideia mesmo.

texto: micell marques, ex-integrante.
ilustrações: neilton dos reis, editor.

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