Perfil #2

“é uma outra dinâmica o espaço e isso influencia com certeza”_

O perfil dessa edição traz a narrativa de Terra Assunção que conta como foi seu processo de chegada ao Coletivo Duas Cabeças, sua participação anterior em coletivos e como os espaços podem ajudar a pensar essas experiências.

Acho que falar sobre o Coletivo pra mim, na minha vida, parte de um outro parâmetro. Porque eu vinha já de um outro coletivo, na Rural (UFRRJ). O Coletivo Pontes. E no Pontes, na Rural, eu tinha uma participação bem ativa. Foram uns três anos. Então participei de vários eventos, frequentava as reuniões, que eram no alojamento né. Então, lá nesse coletivo, a gente tinha uma coisa muito legal: o fato de muitos morarem no alojamento. E existia realmente uma questão ali de que qualquer caso de lgbtfobia que acontecia naquele espaço, a gente tinha uma união. Mesmo que com divergências. Lógico, porque sempre há. As pessoas têm correntes de pensamento político diferentes. Mas acho que isso faz parte de um coletivo assim. Então eu chego aqui com essa vivência.

Quando eu cheguei teve aquela coisa de chegar meio “ah, quero conhecer as pessoas e tal”. Aí eu pensei “ah vou procurar, ver se tem algum coletivo”. Pela internet mesmo eu descobri que tinha o Duas Cabeças. Não me lembro se eu cheguei a mandar mensagem, se não foi. Mas eu lembro assim bem da primeira reunião que eu fui, que acontecia na Ágora. Ali na UF(JF), no jardim. Aí foi no intervalo da aula que eu fui parar lá.

Foi todo um processo até eu entender como que funcionava o Coletivo aqui. Foi meio que cair de paraquedas.

Quando eu cheguei aqui, eu via que as coisas funcionavam de maneira mais lenta. Que não era a mesma união assim que eu esperava, sinceramente. Mas aí parte desse princípio da minha vivência anterior. Então eu tive que entender como funcionava aquela nova configuração. Comecei a frequentar as reuniões.

Porque como a maioria do pessoal do Pontes morava no alojamento, só isso já faz uma diferença muito grande. A gente meio que convivia assim.

Acho que até por uma questão do espaço geográfico. Isso foi uma coisa difícil pra mim me costumar aqui. É uma outra questão você estar em Minas, no interior de Minas e você estar na Baixada Fluminense. Até pela quantidade de pessoas negras, que lá obviamente é maior. Mas também pela questão cultural. Existe, acho que aqui em Minas tem um outro trato. Eu acho que vem de uma coisa de proximidade, de jeitinho carinhoso. Mas ao mesmo tempo existe um distanciamento. Acho que uma coisa cultural do Rio de Janeiro, já é uma coisa mais “ah, vamos lá, vou na tua casa e tal”. Por exemplo, aqui tem pessoas que eu conheço há, sei lá, quatro anos que eu tô aqui e eu nem sei onde a pessoa mora. Eu não faço a mínima ideia e também não tem a menor pretensão de me convidar pra ir na casa dela. E eu entendo assim, ninguém é obrigado. Mas acho estranho eu conhecer a pessoa e não saber nem onde ela mora.

É uma outra dinâmica o espaço e isso influencia com certeza.

texto: terra assunção, artista visual.
ilustrações: neilton dos reis, editor.

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