Perfil #especial

LOCALIZE TEUS AFETOS_

O “perfil” dessa edição incentiva a localização geográfica dos afetos. Neilton dos Reis experimenta mapear seu mundo bicha/queer através do “queering the map” e incentivamos a fazer o mesmo.

Alguns números: foram em umas 80 cidades, 13 países, 10 casas.
Um tanto de afetos.

Certa vez eu estava em um ônibus e ouvi falar que quando saímos de um lugar, deixamos um pouco de nós nele. E, o principal, que só saberemos o que foi esse “pouco de nós” quando a gente retorna.

Foi o Tim que me disse isso. Ele deixou muitos Tim’s em muitos lugares. Inclusive naquele ônibus de madrugada que se aproximava, de quando em quando, do mar e de uma ilha.
Tim deixou um pouco de Tim comigo. Eu deixei um pouco de mim com Tim.
Nunca mais nos encontramos, e duvido que o façamos. Mas fiquei na cabeça esse “ouvi falar”. Esse de que alguma coisa de nós fica nesses lugares. Comecei a fazer as contas e cheguei naqueles números.

Mas, pra além de números ou contas de instagram que se troca durante viagens, fiquei a pensar que, talvez, esse pouco de nós que fica, sejam também o pouco dos nossos afetos.

Quero retornar pra sentir de novo aquele afeto que me fez engasgar ao ouvir uma declaração pela primeira vez; aquele afeto que eu chamava de migo; aquele afeto que me ensinou como gritar em um protesto; aquele afeto que me fez entender que cuidar das pessoas é muito importante; aquele afeto que me fez pensar no comum; aquele afeto que...

Acontece que quero descobrir o que fica dos meus afetos. E pensei que uma das formas de fazer isso, de ir pra fora de casa estando dentro de casa (ou, como disse Wagner, trazer o fora para dentro) é construindo mapas.

Os mapas são operações lindas. Uma maneira toda especial (e complexa) de fazer poesia.

Por exemplo, podemos construir o mapa de uma cidade. Ou o mapa de uma infância. O mapa da nossa casa. O mapa astral. O mapa mental. O mapa conceitual. O mapa político. O mapa daquilo. O mapa disso.

E logo descobri que podemos construir o mapa dos nossos afetos. Dos nossos afetos que uma vez negaram que são afetos, que chamaram de pecado, crime, doença, loucura. Então se é pra falar de mim, que seja localizando meus afetos em mapa — que daí, talvez, eu encontre o que de mim não está mais em mim.

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