Perfil #4

“Donatela foi a minha experimentação artística e ativista”_

O perfil dessa edição traz a narrativa de César Dornelas, integrante do Coletivo Duas Cabeças, artista e drag queen Donatela.

No finalzinho do Coletivo Duas Cabeças, da minha participação no Coletivo, eu descobri uma outra vertente de arte. Por mais que eu estivesse envolvido em arte, com o teatro e o coral, desenho e essas coisas, já estava imerso em arte e tudo. Tanto é que eu quase fui fazer Artes e Design, e não Administração. Mas no finalzinho da minha participação no Coletivo eu descobri a arte drag. Eu conheci a arte drag, e de uma forma diferente. Diferente da que eu conhecia antes, que era só a drag de bate-cabelo. Eu conheci todas as possibilidades de drag possíveis e existentes até aquele momento. Óbvio que todas não, porque todas as possibilidades de drag é individual. Drag sendo uma performance de gênero, não tem como eu fazer uma performance de gênero igual a tua. Mas eu comecei a me interessar e me joguei. E aí nasceu Donatela.
E Donatela foi a minha experimentação artística e ativista. Onde eu brinco com os padrões estéticos e impostos de gênero. Tô lá montadona maquiada e tal, com minha barba grande, com meu peito peludo. E representando, de certa forma, uma sensualidade e questionando isso. Questionando isso. “Mas pera, que porra é essa aí? É homem? É mulher? O que que é?” É exatamente isso: todas as possibilidades de ser, de existir e de ocupar um corpo. Eu percebi isso como drag e fui entrando cada vez mais nesse universo.
Por mais que hoje eu tenha também percebido que tem outra forma de eu fazer isso artisticamente. Não só me conectando montada e dublando, que era o que eu mais fazia. E aí me descobri enquanto DJ. Aí eu comecei a trazer a presença de um corpo andrógeno em ambientes de discotecagem, ambientes de festa. Mas não numa performance, não me vendo dublando a música de 4 minutos. E sim sentindo toda a mensagem que eu vou passar através da discotecagem, através das músicas que escolhi e tudo mais.