conversa #7

meus saberes a serviço da Universidade_

A conversa dessa edição é com Carolina Bezerra. Professora e Doutora da UFJF, ela compartilha sua trajetória com a gente: enquanto mulher, negra e pesquisadora-militante das questões de gênero, raça e classe.

Abaixo você lê a transcrição da primeira parte da conversa.

As outras partes virão nas próximas edições.

A minha trajetória dentro da Universidade é uma trajetória que vai trazer muitas reflexões com relação ao acesso que outros grupos oriundos das classes populares, oriundos da população negra brasileira trouxe pra Universidade. Embora eu não tenha participado de programas de cotas, eu sou filha de imigrantes nordestinos em São Paulo, estudei a vida inteira em escola pública e acabo, em função da separação dos meus pais, indo morar em Ubatuba/SP. E, desde o segundo ano do Magistério, começo a estudar pra passar numa Universidade Pública, porque eu tenho muita clareza que se eu não passasse em uma Universidade Pública os meus pais não teriam condições de pagar uma faculdade particular. Então eu pego as apostilas de umas amigas minhas e começo a estudar para o vestibular. Eu gravava o “Vestibulando” que era um programa da TV Cultura, estudando sozinha e lendo.

 

E eu morando em Ubatuba, consigo uma bolsa pela Secretaria do estado de São Paulo para trabalhar numa comunidade caiçara que depois se reconhece uma comunidade quilombola. E é a comunidade onde eu vou estudar no doutorado.

 

Então quando eu chego na Universidade de São Paulo eu não tenho onde morar, nesse momento minha mãe tá morando em Curitiba/PR. Eu inauguro minha entrada na Universidade em uma ocupação de alojamento. Começo a morar num alojamento enquanto me inscrevo na bolsa moradia. Eu posso dizer que fui uma estudante que a Assistência Estudantil da Universidade foi fundamental pra que eu pudesse estudar e concretizar a minha trajetória. Eu tive bolsa moradia, bolsa alimentação e bolsa trabalho. E depois disso eu fui construindo minha trajetória, tive bolsas de Iniciação Científica e começo a atuar como alfabetizadora de jovens e adultos no Núcleo de EJA da Faculdade de Educação da USP. Eu cheguei a trabalhar dentro do hospital, eu dava aula pros funcionários de turno da noite.

 

Minha trajetória na Universidade sempre esteve ligada a essa reflexão e com temas e grupos das classes populares. A minha outra atuação profissional na alfabetização foi no Núcleo de Consciência Negra, onde eu começo a trabalhar e me envolver nas discussões e recebo uma formação. Então eu tenho uma formação muito importante na formação teórica, mas a complementação dela numa perspectiva de educação popular, de educação anti-racista, anti-lgbttifóbica, anti-machista, se completa na minha atuação e circulação nos movimentos sociais.

 

Então minhas lutas elas estavam articuladas em perspectivas que vão questionar as subalternidades no espaço acadêmico e o papel das violências que são direcionadas a determinados grupos na sociedade brasileira.

 

Eu atuo na Universidade como professora na alfabetização de EJA na USP e assim que eu tô terminando o mestrado, eu passo em um edital pra ser professora substituta. Aí eu vou dar aula na Universidade Estadual de Londrina. Eu acabo, lá, indo atuar em projetos e frentes que estão relacionados à minha escolha de pesquisa. Eu vou pesquisar o Jongo, enquanto uma prática educativa simbólica que surge nas senzalas, que é mantida de geração em geração e que constrói um lugar de identidade e pertencimento fundamental para a história de vida e cultura daquelas pessoas.

 

Acabo tendo uma resistência na UEL entre algumas professoras evangélicas, algumas professoras muito ligadas à práticas religiosas que vão ver o Jongo e nas expressões de matriz africana e falar “ah, a professora Carolina é ‘macumbeira’ que traz tambor pra Universidade, que anda com turbante”.

 

Quando eu venho pra Juiz de Fora e chego na Universidade pra dar aula pra crianças é minha primeira experiência como docente de criança. No primeiro momento eu sinto uma resistência do colégio por ser uma professora com outro perfil. Eu passo em último lugar no concurso.

 

E eu tento nesses anos todos no João XXIII trazer essas experiências nas comunidades quilombolas. Essa formação que trabalha com a articulação de saberes tradicionais, de saberes científicos, pensando nessa construção de saberes escolares.

 

E aí nessa minha trajetória acabei me aproximando da Diretoria de Ações Afirmativas quando ela foi criada. No sentido sempre de colocar meus saberes a serviço da Universidade. Então assessorando a Diretoria teve um momento de mudança de configuração política que a diretora não ia mais permanecer. E então, mesmo eu não tendo uma ligação pessoal próxima porque eu não sou daqui, não sou ligada aos grupos e famílias de JF, quando eu ouço que a Diretoria de Ações Afirmativas ia acabar, eu procuro o reitor em exercício e falo que a UFJF estava em uma política de vanguarda, que isso era inadmissível e faço uma fala em defesa. E acho que ele fica muito surpreso com aquilo e quando chego ali ele olha e começa a perceber que existia uma série de proposta que vinha de mim. E aí ele fala: “então a partir de segunda-feira você vai ser a nova diretora de Ações Afirmativas”. No momento eu entro em pânico e falo não, falo da minha situação e chego a chorar. Aí ele é muito acolhedor e fala “assuma, pegue essa diretoria que eu vou estar ao seu lado”.

 

E foi uma experiência muito forte. Eu permaneci 11 meses na diretoria tendo que lidar com situações adversas, com situações muito difíceis. Mas a minha ideia sempre uma: meu povo preto. As questões de violência e de opressão, elas não esperam um governo ou outro, uma gestão ou outra. Então o que eu posso, pra colocar meu trabalho e conhecimento a serviço da Universidade em qualquer gestão ou grupo político, desde que seja progressista e esteja apontando caminhos superadores de problemas das questões que a contemporaneidade tem trazido, eu estou junto.

 

Pensar em políticas de ações afirmativas é pensar no acesso e na permanência. E essa permanência se faz exatamente na articulação de todos os fatores. Em um ambiente que não seja hostil a esses grupos. Em um ambiente que acolha a diversidade e especificidades.  A Universidade toda ganha no investimento em novas epistemologias, em novas compreensões, em novos conhecimentos.

 

E o foco nas violências. Quais são as violências que esses grupos vivenciam e sentem na Universidade? É importante que pensemos políticas institucionais pra trabalhar nesses grupos. As campanhas sempre foram pensadas nesse sentido.

 

A partir do momento que eu trago essa minha vivência e esse meu lugar e experiência em uma Universidade que é extremamente racista, extremamente elitista, faz com que eu estar num cargo de gestora, eu promova perspectivas diferentes. E não reproduza as violências que eu sofri também nesse espaço. Essa é uma grande contribuição que a gente traz pra Universidade. Um outro olhar em relação aos direitos humanos, à vida, às pessoas. Sobre o quanto esses corpos contribuem pra trazer nova vida pra Universidade.

 

As políticas de Ações Afirmativas são importantes porque elas vão tratar de forma equânime pessoas que tiveram trajetórias díspares e desiguais na sociedade brasileira.

 

(Continua nas próximas edições...)