Conversa #8

Miserere Nobis_

a conversa dessa edição é trazida por Mar Maxwell, trans não-binário e cristã luterana, trazendo trechos de entrevista realizada com Arthur Rocha, coordenador da inclusão luterana.

O material foi um dos selecionados na Chamada Aberta sobre “espiritualidades, religiões e religiosidades”.

- Aqui vocês acham que ser gay é pecado?


Foi assim, com essa pergunta feita à queima-roupa que eu cheguei, calejada, à porta de uma igreja. Eu havia tido o tal chamado de Cristo algum tempo antes e queria pertencer a uma comunidade cristã e estudar a Bíblia, mas as igrejas dificultaram. Algumas das melhores pessoas que eu conhecia eram LGBTQIA+ como eu, e ouvindo frases como “Deus abomina os gays” de lábios de pessoas que se diziam de um Deus que é só amor, eu me recusava a acreditar nisso.

Procurei igrejas com uma roupagem moderna, ouvi coisas como “Por que você está se preocupando se nem é?”(de gente que me julgou pela aparência sem saber que eu era LGBTQIA+), “Deus perdoa até assassinos”(de gente cansada depois da minha argumentação pondo ser gay e criminoso na mesma caixa) e “Não escolher Jesus é como não escolher um guarda-chuva de aço numa chuva de facas”(de gente querendo que nos convertamos pelo medo).

Eu frequentei a umbanda, que na tal igreja moderna era motivo de chacotas e “Tá amarrado”. Enfim, um show de intolerância que me fez, exausta, chegar na enésima igreja com arrogância ao invés de humildade.

Foi assim que cheguei à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil(IECLB). Muitas pessoas LGBTQIA+ têm resistência a diálogo com evangélicos e em alguns casos a frequentar igrejas evangélicas/protestantes mesmo que seja de sua vontade. Posso dizer que entendo por tudo que ouvi até chegar na porta de madeira daquela igreja e ouvir que não, ser gay não é pecado. Temos exemplos de igrejas voltadas ao público LGBTQIA+ como a Igreja da Comunidade Metropolitana, mas não é uma realidade em todo o Brasil. Não era realidade há algum tempo atrás. Ainda hoje é algo que gera debates.

Conversei com o graduando em Teologia e Coordenador da Inclusão Luterana da IECLB, Arthur Rocha, sobre o tema.

Segundo Arthur, o recorte de gênero também se estende à aceitação ou não de mulheres como pastoras e as igrejas protestantes históricas levam mais à frente o diálogo em relação a igualdade e inclusão de gênero e sexualidade, porém as que de fato exercem uma inclusão plena ainda são poucas e a situação ainda é mais alarmante nas igrejas pentecostais e neopentecostais, onde a tendência ao pensamento crítico e questionamento diminuem a cada dia, embora não tenha relação com seus valores.

Segundo ele, a maior abertura para diálogo e inclusão em igrejas históricas, como pude vivenciar, vem de uma forte base crítica no protestantismo, fazendo um paralelo entre a frase do reformador João Calvino que diz que “O coração humano é uma fábrica de ídolos” com o preconceito enraizado em muitas instituições.

Émile Durkheim, em “Da divisão do trabalho social”, diz que há dois tipos de solidariedade, a mecânica, de iguais se juntando e blindando contra o resto, e a orgânica, de inclusão. Rocha diz que embora haja um ímpeto de solidariedade mecânica nos tempos atuais de forte polarização na América Latina, isso se dá não para criar guetos, mas por instinto protetivo, já que o Brasil é o país que mais mata transgêneros no mundo e recentemente o Pastor vice-presidente da Iglesia Evangelica Luterana Unida, abertamente soropositivo e gay, foi assassinado em sua casa pastoral em Buenos Aires e especula-se ter sido um crime de ódio.

Muitas pessoas, quando imaginam evangélicos, logo pensam em pessoas de vivências limitadas ludibriados pelas óticas de pastores e instituições que disseminam o preconceito. Arthur ressalta que sejam cultas ou não, o mais importante é a empatia. “Ser empático com outro ser é muito humano, chego ainda a afirmar que quando as pessoas se deixam levar pela massa de replicação de ideias que ferem e matam outras pessoas, outros seres e a Criação de um modo geral, elas estão abrindo mão de sua humanidade, de sua espiritualidade, aquele questionamento sobre algo maior que ocorre a todo ser humano independente de crença ou ausência dela, é abrir de sua própria centelha de vida, do que o faz viver.”.

texto: Mar Maxwell.