Abre aspas #8

“cartas d’eus”_

abre aspas nasce trazendo pedaços da minha tese de doutorado em educação em que reverberam as questões envolvendo religiosidades e minha ligação com as divindades e religiões.

d’eus.
De vários eus, como afirma Linn [da Quebrada].

***

Já é segunda-feira. O som que me embala, agora, é outro: caminho acompanhado pelas letras e melodias do gospel.
Fato interessante <será mesmo?>: ao final de cada ano, o Spotify prepara uma retrospectiva que faz um consolidado a partir do que a pessoa mais ouve, apresentando alguns infográficos e gerando algumas playlists baseadas neles. Em 2017 e 2018, produzi dados pouco convencionais (isso se basearmos nas comparações com amigas e com pessoas que postam suas retrospectivas nas redes digitais): na categoria de estilos mais ouvidos, funk e gospel; em músicas e artistas mais ouvidas, várias da Linn e tantas da Luma Elpídio, Bruna Karla, Canção e Louvor... Contraditório? Penso que não. Pode até ser, mas não necessariamente [e o contraditório é bom também!] <gosto muito dos sentidos dessas combinações de palavras: pode ser, talvez, quem sabe, ou não>.

E o que tem isso de interessante? Duas coisas, penso.
Primeiro porque confronta uma visão estereotipada de uma provável necessidade de cisão tanto dos estilos musicais, enquanto expressões de tipos diferentes de dadas culturas, quanto das pessoas que vivem e produzem e consomem esses tipos de artefatos culturais. É como se fosse proibido, por parecer incoerente para alguém, uma pessoa ouvir e cantar e dançar e curtir funk E gospel, viver contextos em que estejam presentes os dois estilos, as duas formas de expressão. Como se um não pudesse coabitar o território com o outro. Como se não existissem outros imbricamentos e misturas e fusões (o funk gospel é apenas um dos tantos exemplos).
Desdobrando esse pensamento para o campo gênero-sexualidade, temos outro problema. Antes, parece importar dizer que, em razão de julgamentos de caráter moral, se estabelece algum tipo de arquétipo que represente uma OU outra forma de viver-música [talvez Max Weber chamaria de tipos-ideias?]: funkeiras OU religiosas (ou ungidas, na língua dos memes). Ignora-se que possam existir, de novo, os atravessamentos e conjunções. Ainda, há um acoplamento de juízo de valor (moral) a essas figuras: bom e certo = religiosas [versus] mal e errado = funkeiras. Quando essa discussão é vestida de questões de gênero e sexualidade, qual desses padrões é comumente acionado para designar as pessoas dissidentes das imposições cisheteronormativas?
É uma tentativa de exclusão que, no limite, separa até a possibilidade da existência de alguma divindade para aquelas que estiverem desviadas do caminho estabelecido como o padrão. E aqui, quanto aos meus eus, seria pensar que (considerando que eu acredito em alguma deusa) eu não teria qualquer tipo de religiosidade porque gosto e consumo funk.
Mas não é bem assim!
<esse é um assunto que me afeta bastante – tanto que essa escrita, desses parágrafos em específico, ficou travada por vários dias, precisando ser retomada e paralisada e retomada...>

***

Há tempos passo por essas discussões. Elas me atravessam desde criança, quando fui coroinha e fiz catequese, e nas tantas vezes que busquei religiões diferentes que pudessem me oferecer algum tipo de entendimento e conforto. Hoje, pensando sobre aquele tempo, identifico alguns questionamentos que já estavam presentes lá – e são ressignificados pelo que me toca no viver-agora. Assim como a Linn, fui crescendo educado por uma ética e moral cristãs (católicas, no meu caso) – parece que esse é um comportamento comum, sobretudo até meados dos anos 2000, quando acontece alguma inflexão cultural (?) e são reforçados outros modos de enxergar o mundo e a relação com o signo do divino.
Eu: católico apostólico romano que frequenta a missa e faz terços e rezas e lê e decora partes da Bíblia Sagrada e que canta os hinos/cânticos e recita salmos e ajoelha e faz catequese para estar digno de comungar o corpo e sangue de cristo e ajuda os padres e é fascinado por crucifixos e é bajulado pelas carolas da comunidade e foi batizado por três vezes (uma na igreja, logo ao nascer, outras duas nos batismos de fogueira – prática cultural que era comum nos sertões de Minas Gerais) <e se eu contasse sobre isso, em algum momento?>... Eu, também, que passou por várias igrejas de diferentes religiões, que professou a fé congregando e estudando semanalmente [com livros, bíblia, revistinhas] com as Testemunhas de Jeová (Linn era desta religião), que fez parte de comunidades protestantes, que fazia benzeção para alguns males (tanto eu operava o benzer, quanto recebia], que já se jogou na filosofia budista, que conheceu e se dedicou a entender a doutrina espírita, que já fez oferendas e ebós aos santos do candomblé e da umbanda... Eu, inclusive, que continuo imerso em práticas afro-brasileiras, sobretudo da umbanda, e que, filho de mãe cartomante (das boas!), se preocupa em estudar algum modo de praticar a mediunidade, e, ainda, está imerso em práticas xamânicas e da medicina da floresta. Eu sou espiritualista, respondo a quem me pergunta. Tenho bastante ligação com aspectos das divindades, mas não acredito no Deus escrito com d maiúsculo. Talvez profanando um conceito fundamental da filosofia deleuziana, diria que minha perspectiva do sagrado é rizomática...

texto: leandro leal, editor.