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- Aqui vocês acham que ser gay é pecado?


Foi assim, com essa pergunta feita à queima-roupa que eu cheguei, calejada, à porta de uma igreja. Eu havia tido o tal chamado de Cristo algum tempo antes e queria pertencer a uma comunidade cristã e estudar a Bíblia, mas as igrejas dificultaram. Algumas das melhores pessoas que eu conhecia eram LGBTQIA+ como eu, e ouvindo frases como “Deus abomina os gays” de lábios de pessoas que se diziam de um Deus que é só amor, eu me recusava a acreditar nisso.

Procurei igrejas com uma roupagem moderna, ouvi coisas como “Por que você está se preocupando se nem é?”(de gente que me julgou pela aparência sem saber que eu era LGBTQIA+), “Deus perdoa até assassinos”(de gente cansada depois da minha argumentação pondo ser gay e criminoso na mesma caixa) e “Não escolher Jesus é como não escolher um guarda-chuva de aço numa chuva de facas”(de gente querendo que nos convertamos pelo medo).

Eu frequentei a umbanda, que na tal igreja moderna era motivo de chacotas e “Tá amarrado”. Enfim, um show de intolerância que me fez, exausta, chegar na enésima igreja com arrogância ao invés de humildade.

Foi assim que cheguei à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil(IECLB). Muitas pessoas LGBTQIA+ têm resistência a diálogo com evangélicos e em alguns casos a frequentar igrejas evangélicas/protestantes mesmo que seja de sua vontade. Posso dizer que entendo por tudo que ouvi até chegar na porta de madeira daquela igreja e ouvir que não, ser gay não é pecado. Temos exemplos de igrejas voltadas ao público LGBTQIA+ como a Igreja da Comunidade Metropolitana, mas não é uma realidade em todo o Brasil. Não era realidade há algum tempo atrás. Ainda hoje é algo que gera debates.

Conversei com o graduando em Teologia e Coordenador da Inclusão Luterana da IECLB, Arthur Rocha, sobre o tema.

Segundo Arthur, o recorte de gênero também se estende à aceitação ou não de mulheres como pastoras e as igrejas protestantes históricas levam mais à frente o diálogo em relação a igualdade e inclusão de gênero e sexualidade, porém as que de fato exercem uma inclusão plena ainda são poucas e a situação ainda é mais alarmante nas igrejas pentecostais e neopentecostais, onde a tendência ao pensamento crítico e questionamento diminuem a cada dia, embora não tenha relação com seus valores.

Segundo ele, a maior abertura para diálogo e inclusão em igrejas históricas, como pude vivenciar, vem de uma forte base crítica no protestantismo, fazendo um paralelo entre a frase do reformador João Calvino que diz que “O coração humano é uma fábrica de ídolos” com o preconceito enraizado em muitas instituições.

Émile Durkheim, em “Da divisão do trabalho social”, diz que há dois tipos de solidariedade, a mecânica, de iguais se juntando e blindando contra o resto, e a orgânica, de inclusão. Rocha diz que embora haja um ímpeto de solidariedade mecânica nos tempos atuais de forte polarização na América Latina, isso se dá não para criar guetos, mas por instinto protetivo, já que o Brasil é o país que mais mata transgêneros no mundo e recentemente o Pastor vice-presidente da Iglesia Evangelica Luterana Unida, abertamente soropositivo e gay, foi assassinado em sua casa pastoral em Buenos Aires e especula-se ter sido um crime de ódio.

Muitas pessoas, quando imaginam evangélicos, logo pensam em pessoas de vivências limitadas ludibriados pelas óticas de pastores e instituições que disseminam o preconceito. Arthur ressalta que sejam cultas ou não, o mais importante é a empatia. “Ser empático com outro ser é muito humano, chego ainda a afirmar que quando as pessoas se deixam levar pela massa de replicação de ideias que ferem e matam outras pessoas, outros seres e a Criação de um modo geral, elas estão abrindo mão de sua humanidade, de sua espiritualidade, aquele questionamento sobre algo maior que ocorre a todo ser humano independente de crença ou ausência dela, é abrir de sua própria centelha de vida, do que o faz viver.”.

Miserere Nobis_

a conversa dessa edição é trazida por Mar Maxwell, trans não-binário e cristã luterana, trazendo trechos de entrevista realizada com Arthur Rocha, coordenador da inclusão luterana.

O material foi um dos selecionados na Chamada Aberta sobre “espiritualidades, religiões e religiosidades”.

RESUMO
Com base nas sabedorias ancestrais iremos propor um giro epistêmico sobre os saberes filosóficos do axé através das narrativas, enquanto forma de compreender a experiência humana, da Yalorisha Omó Oyá Jacqueline Costa zeladora do Ilê Oyá Gariazô localizado em Seropédica no Rio de Janeiro.
Dentro perspectiva interseccional dos atravessamentos demonstrados nas narrativas da Yalorisha Jacqueline, iremos transitar pelos caminhos da religiosidade de uma mulher negra, mãe e empreendedora que através da espiritualidade nos mostra saberes, práticas e vivências dos tantos cotidianos presentes em sua existência ressaltando subjetividades únicas e diversas.

PALAVRAS-CHAVE: Axé, Mulheres Negras, Espiritualidade, Narrativas.

GIRA ABERTA

No terreiro sempre me diziam que eu tinha uma missão muito longa pra cumprir e que ali era só a escolinha mais que eles sempre estariam ao meu lado pra me ajudar, pois por muitas vezes eu iria desistir e retornaria arrependida e tudo que eles falaram aconteceu.
Jacqueline Costa

Pedimos licença para abrir esta gira repleta de axé e sabedorias ancestrais que, através das narrativas da Yalorisha Omó Oyá Jacqueline Costa iremos propor um giro epistêmico na construção dos saberes filosóficos de axé, este valor civilizatório afro-brasileiro que pode ser compreendido como sendo:

Axé é a força que assegura a existência dinâmica, o princípio que torna possível o processo vital. Como toda força, é transmissível, sendo conduzido por meios materiais e simbólicos. É uma força que só pode ser adquirida por introjeção ou contato, podendo ser transmitida a objetos ou seres humanos. O terreiro tem um axé plantado, que se expande e se fortifica combinando as qualidades e significações de todos os elementos que o compõem:
- axé dos orixás;
- axé dos membros do terreiro;
- axé dos antepassados e mortos ilustres do terreiro (THEODORO, 2014, p. 73).


Para tanto, se faz necessário relembrar que nossos passos vêm de longe e nossos ancestrais que aqui aportaram na condição de escravizados, trouxeram em seus corpos e mentes sabedorias que iriam forjar armas para que ainda hoje pudéssemos nos defender de todo mal. 

Neste aspecto, o objetivo deste artigo é compreender narrativas que durante muito tempo foram perseguidas, menosprezadas, ocultadas e demonizadas dentro de nossa sociedade, construindo um percurso de valorização e visibilidade dos saberes de terreiro, para tanto, precisamos compreender que:

A perspectiva narrativa se tornou tão relacionada a histórias, geralmente tratadas como textos ouvidos ou contados, no entanto, as histórias de pesquisadores narrativos mostram que a pesquisa narrativa é muito mais do que ouvir histórias, é uma forma de viver, é um modo de vida, conforme Clandinin e Connelly (2011). Pesquisa narrativa é um processo de aprendizagem para que se possa pensar narrativamente, para que se atente para as vidas, enquanto vividas narrativamente (SAHAGOFF, 2015, p. 02).

Para atingir os objetivos propostos, o principal instrumento para geração de dados foram as narrativas da Yalorisha Omó Oyá Jacqueline Costa. Demonstrando (PEREZ, 2003) que as narrativas biográficas se constituem como fragmentos discursivos sobre a vida daquelas e daqueles que as relatam, fornecendo informações relevantes para configurar o reencontro de experiências vividas, pois narrativas autobiográficas implicam num sistema de interpretação e construção que situa, une e faz significar os acontecimentos da vida como elementos organizados dentro de um todo e que também significa um projeto de si dentro de uma construção biográfica. 

Ressaltamos que, contudo, essas representações de si podem cristalizar significados em torno de identidades como: “mulher negra”, “mulher negra de axé”, “mulher de axé”, por exemplo, ignorando como os marcadores sociais de raça/classe/gênero estão imbricados nessas experiências.

Neste sentido, iremos demonstrar que todo e qualquer saber de axé envolve um compromisso sério com o conhecimento, pois abordam as ritualísticas, os estilos de pensamento e os modos de existência das comunidades afro-brasileiras com base no valor civilizatório afro-brasileiro do Axé (TRINDADE, 2005). Serão trocados saberes sobre fé, a crença no que olhos não enxergam, naquilo que as mãos não tocam, mas que o coração apenas sente. 

YANSÃ MORA NAS PEDREIRAS EU QUERO VER MEU PAI XANGÔ

Eu tenho estou na Religião a 42 anos, sou iniciada no Candomblé a 32 anos e no Ifá a 10 anos. Estou sempre em busca de evolução, sou uma pessoa revolucionária, não aceito qualquer explicação, não concordo com opiniões formadas, e sempre serei uma pessoa intensa e grata a tudo e todos que passaram pela minha vida, pois cada um complementa a minha história.
Yalorisha Jacqueline Costa

Para abrirmos os trabalhos é necessário ressaltar que ao observamos a grande quantidade de mulheres negras que ocupam diversos cargos nos setores da sociedade, percebemos que ainda nos olham como aquelas que muito têm a oferecer e pouco a receber, pois ainda hoje é negada a humanização, inclusão e inserção social da mulher negra em alguns espaços de forma igualitária.

Compreender esta realidade é de suma importância para destacar a relevância deste artigo, pois são relatadas situações que em função do pensamento colonial (QUIJANO, 2001) foram subjugadas e desumanizadas e não compreendidas como uma possibilidade outra de entendimento da subjetividade de mulheres negras de axé.

Dito isto, iremos desbravar os percursos narrados pela Yalorisha Jacqueline que transitam pela maternidade, empreendedorismo, religiosidade, espiritualidade e axé, propondo um olhar diferenciado sobre as subjetividades e compreendendo a grandiosidade das vivências de uma mulher negra de axé.

Na cultura africana, os mitos situam o poder de realização da mulher, indicando também a necessidade de controle de tal poder: esse controle se justifica pela voracidade, pela intolerância e pelos exageros que os africanos atribuem como naturais e próprios do axé das mulheres. Os mitos mostram a ponderação, a paciência, a razão, a capacidade de produção cultural e a construção da história dos homens. Assim, às mulheres não é permitido conhecer os mistérios de Ifá, orixá de adivinhação, que significam a história e o destino do povo ioruba. Da mesma forma, são-lhe vedados os segredos do culto dos Eguns, que representam a linhagem e continuidade da ancestralidade masculina (THEODORO, 2014, p. 102).

Através das narrativas da Yalorisha Jacqueline poderemos perceber muitos pontos de entrecruzo presentes nas nossas estórias, como a presença da religiosidade enquanto valor civilizatório afro-brasileiro, que para a nação afrodescendente, (TRINDADE, 2005) que seria mais do que uma religião, mais sim, um exercício permanente de respeito à vida e doação ao próximo.

Eu me chamo Jacqueline Costa e nasci em 29/06/1971. Filha carnal de Osmar Bernardo da Costa (in memoriam) mais conhecido como Mazinho 7 capas. Aos 02 anos de idade tive o meu primeiro desmaio longo nessa época meu pai já estava no processo de separação de minha mãe, mesmo assim ainda era presente, e quando aconteceu teve a intuição que aquele estado não era só um desmaio e sim minha espiritualidade se manifestando. No mesmo momento, conta minha mãe ele fez algumas coisas, mas por ser católica convicta não entendeu, porém, permitiu e assim me recuperei. Após esse acontecimento não tive mais os desmaios, mas por ser uma criança extremamente agitada vivia me quebrando, inclusive quebrei quase o corpo todo, minha mãe sem saber o que fazer, fez uma promessa para nossa senhora Aparecida que se eu parasse de me quebrar aos 07 anos eu seria levada sua igreja para pagar a promessa. E assim foi. Após pagar essa promessa eu comecei a ter outros tipos de problemas, e minha tia Norma que é baiana e espírita resolveu me levar num centro de umbanda para me rezar. E ali naquele dia que era véspera do meu aniversário, houve minha primeira incorporação com os espíritos (ENTREVISTA CONCEDIDA POR JACQUELINE COSTA EM 06/02/2021).

O entrecruzo de religiões, os olhares diferenciados sobre um mesmo acontecimento, as possibilidades variadas de contar a mesma estória, destacam a amplitude da compreensão de saberes e a abertura para entendimento de perspectivas outras.
A religiosidade está presente na diáspora com o propósito de nos fazer acreditar em momentos melhores, como manutenção não de uma “fé cega”, mas num refúgio onde possamos nos proteger das mazelas do mundo. A propósito, em tempos de tanta violência gratuita, vale pontuar que a vida é um dom divino, de caráter transcendental, e deve ser usada para cuidar de si e do outro.

Nasci para o Orixá no mesmo dia que nasci pra vida 29/06/1988. E eu nasci para o Orixá AIRÁ e OYÁ. ou Zazi Luango e Matamba. Como eu e minha mãe nada entendíamos e aquele mundo pra nós era desconhecido o que meu pai falava era lei. O responsável pela minha Iyalorisa era meu próprio tio Adhemar D Omolu, e a minha mãe era Yara D OXOSSI, mas meu pai era ANGOLEIRO. E eu herdeira da cadeira, pois DANDALUNDA que fez questão de vir e quando tudo se conclui, e disse meu cargo IYALORISA ou MAMETU. E me sentou na cadeira, eu não entendia nada então nem sabia o que estava acontecendo. Mais hoje eu sei e a partir disso minha vida tomou outra direção. Cumpri meus preceitos de Iyawo e muitas coisas aconteceram com a minha Iyalorisa e quem me amparou e cuidou de mim foi minha madrinha de Morunkó, mãe Celina D' Yoba, graças a ela me formei na enfermagem e dei continuidade no candomblé. Aos 24 anos de vida paguei minha obrigação de 7 anos para AIRÁ e somente aos 09 anos de santo consegui me encontrar nesse turbilhão chamado candomblé. Aonde tive o Amparo religioso que certo ou errado salvou minha vida pela Iyalorisa Selma D Aira, que organizou minha vida dentro do Candomblé. Passei a ser conhecida como Jacqueline D'Oya e não era mais a XANGOZINHO. Mais jamais vou deixar de ser do Orixá que nasci até porque ele é PRESENTE até hoje, e tenho tudo que um rei precisa, pois ele é meu Pai Xangô e minha vida e Oya meu Ar. Passei a ser Ori Meji como dizem. Após essa mudança me enfiei mais ainda no candomblé, pois dentro desse tive muitas passagens que uma hora escrevo um livro e assim relato tudo que de fato luto pra que não aconteça com ninguém que a espiritualidade escolha (ENTREVISTA CONCEDIDA POR JACQUELINE COSTA EM 06/02/2021).

Uma das grandes questões presentes na narrativa da Yalorisha Jacqueline é o fato de demonstrar a relevância de fatos, datas, nomes e locais, pois dentro de uma perspectiva de construção de saberes filosóficos de axé, inserir estes dados nos mostra a existência de práticas ancestrais que se apresentam durante muitos períodos, mas que em função do racismo religioso foram desconsiderados como saberes. 

As narrativas da Yalorisha Jacqueline nos demonstram a importância do sagrado para a vivência de uma mulher negra que desde cedo já havia sido escolhida pela ancestralidade para seguir os caminhos do axé. Através da sua narrativa percebemos a relevância das vivências e subjetividades dos mais velhos, que nos mostram e trazem as ricas vivências e práticas da cultura e religiosidade afro-brasileira, pois:

Uma das mais destacadas entre essas matrizes é a da religião de origem africana, vivida no Brasil nas comunidades-terreiro do candomblé e da umbanda e protagonizada em grande parte por mulheres afro-brasileiras.
Essa matriz filosófica africana valoriza sensivelmente o feminino e se fundamenta nos princípios da harmonia cósmica e do constante fluxo e reposição de energias. De acordo com a visão de mundo própria a essa tradição religiosa, as energias cósmicas se resumem numa força vital, o axé.
Essa força reside em todos os aspectos da natureza e do universo. A religião afro-brasileira busca o equilíbrio harmônico da distribuição do axé entre os seres humanos vivos, os ancestrais, os não-nascidos, a natureza e os orixás; entre o mundo espiritual, o orum, e o mundo terrestre, o Aiyê (NASCIMENTO, 2014, p. 165).


É importante enfatizar a importância das mulheres negras na ótica da religião de origem africana, pois estas simbolizam a força matriz que valoriza o sagrado feminino como fonte constante e energia, equilíbrio e axé. Dito isto, através das narrativas da Yalorisha Jacqueline iremos perceber a presença da ancestralidade, num processo de busca e valorização daqueles e daquelas que estiveram presentes nos variados momentos de sua existência, representado uma fonte inesgotável de construção de valores e saberes.

A ancestralidade como valor civilizatório afro-brasileiro (TRINDADE, 2005) se coloca como uma imediata ponte com a história e a memória. Convém não esquecer o passado, pois não existem fórmulas complexas para vivenciar o que é, de fato, a ancestralidade. 
Ressaltamos também a importância de iniciar uma narrativa através da ancestralidade como valor civilizatório fundamental para a construção da identidade da Yalorisha Jacqueline, demonstrando que se torna imprescindível compreender nossos passos através da valorização dos nosso ancestrais, pois:

Para a religião tradicional africana, antes de uma criança nascer – ou renascer –, vai até Olorum, o Deus supremo, para receber um novo corpo, um novo sopro vital e um destino para sua nova vida na Terra. Ajoelhado diante de Olorum, cada ser tem oportunidade de escolher o próprio destino.
O destino tem um dia marcado no qual os seres devem voltar para o orum e abrange a personalidade do indivíduo, sua ocupação e sua sorte. Assim, o dia da morte não pode ser adiado, mas outros aspectos do destino da pessoa podem ser modificados por atos humanos, por seres e forças sobrenaturais. Por isso, durante toda a vida a pessoa tem de oferecer sacrifícios a seu anjo da guarda (à sua cabeça) e às divindades (THEODORO, 2014, p. 74)


Um fator importante a ser mencionado é que propomos um outro horizonte filosófico, pautado em narrativas orais advindas de uma dimensão ancestral, promovendo uma transgressão na compreensão de existências.

Pensar sobre os saberes de axé no âmbito filosófico é compreender o sentido de uma epistemologia que foi subalternizada em função do racismo religioso (NOGUEIRA, 2020) que, tem como alvo um sistema de valores cuja origem nega o poder normatizador de uma cultura eurocêntrica hegemônica cristã, pois:

O racismo religioso, quer matar existência, eliminar crenças, apagar memórias, silenciar origens. É a existência dessas epistemologias culturais pretas que reafirmam a existência de corpos e memórias pretas. É a existência dessas epistemologias pretas que evidenciam a escravidão como crime e o processo de desumanização de memórias existências pretas. Aceitar a crença do outro, a cultura e a episteme de quem a sociedade branca escravizou é assumir o erro e reconhecer a humanidade daquele que esta mesma sociedade desumanizou e matou (NOGUEIRA, 2020, p. 123). 

O giro epistêmico proposto neste artigo, nos indica a importância da inserção destas epistemologias pretas nos variados âmbitos de produção de conhecimento, considerando vivências e práticas. Neste contexto percebemos este outro horizonte filosófico como uma prática de vislumbrar intersecções relevantes para compreender as questões relacionadas aos saberes de axé conduzidos por meios materiais e simbólicos.

EU GOSTO DE SER MULHER 

Como mulher me superei, pois tenho 04 filhos (03 criados e 01 menor). O meu filho mais velho que segue o Candomblé, Ebomi filho de Ogum, Rhomulo D'Ogun, minha filha Thamyres Yane que é Kardecista, o meu filho Rhuan Yago Babalaô Ogunda She e minha caçula Jackeline Victhoria D' Yewa feita de Orixá a 03 anos. Tenho 02 netas lindas que seguem o candomblé e todos são iniciados em Ifá.
Yalorisha Jacqueline Costa

Atualmente, ainda podemos destacar que a situação da mulher negra no Brasil é alarmante, pois estas apresentam o menor nível de escolaridade, trabalham mais, e possuem um rendimento menor. A pobreza e a marginalidade a que é submetida a mulher negra reforça o preconceito e a interiorização da condição de inferioridade, que em muitos casos inibe a reação e luta contra a discriminação sofrida.

Em uma sociedade desigual como a nossa, precisamos compreender a situação da mulher negra, mãe e empreendedora como um olhar diferenciado em vários âmbitos, principalmente se acrescentamos a função de Yalorisha, pois é necessário manter o equilíbrio entre ser mulher e zeladora de uma casa de axé, de ser mãe de filhos e filhas carnais e de filhos e filhas espirituais, cuidar de uma casa e de uma casa de axé.

Percebe-se então, que as tarefas, juntamente com as cobranças se acumulam num emaranhado de situações que não tornam a vida fácil. Nesta perspectiva, ressaltamos a relevância de sermos conscientes de que cada indivíduo é marcado por diversos atravessamentos e subjetividades remetidos a raça, classe e gênero, tornando imprescindível recorrer ao conceito de interseccionalidade (CRENSHAW, 2004), demonstrando que os processos se inter-relacionam e precisam ser considerados para que possam compreender melhor as realidades abordadas. 

Através da interseccionalidade percebemos a colisão das estruturas, a interação simultânea dos caminhos identitárias, pois existem muitas subjetividades implícitas e explícitas apresentadas nas narrativas de mulheres negras, neste caso em específico nas narrativas da Yalorisha Jacqueline, que nos fornece um arcabouço de situações e ações que completam sua existência. 

Sou técnica em enfermagem, estou estudando pra me tornar Terapeuta, já sou Terapeuta Holística e Oracular, sou micro emprededora, sou dona da Aféfé jóias. E estou num novo projeto de evolução espiritual lançando no mercado Cosméticos Naturais para corpo, mente e alma, chamada Pachamama Naturaly (ENTREVISTA CONCEDIDA POR JACQUELINE COSTA EM 06/02/2021).

Neste caminho podemos perceber que a trajetória da Yalorisha Jacqueline se dá com base nas intersecções da mulher, mãe e empreendedora que junta as funções do terreiro as tarefas cotidianas, pois a narrativa centrada em primeira pessoa configura não apenas um testemunho ocular, mas uma vivência que retrata subjetividades únicas dentro da experiência do vivido e confere maior veracidade aos fatos transcorridos, nos colocando diante de um tema negro e de uma vida negra.

Pensar sobre as interseções que perpassam os corpos de mulheres negras é compreender a existência de subjetividades únicas e diversas que em função das desigualdades presentes em nosso país, são ofuscadas e minimizadas. 

Na tríade mulher, mãe e religiosa podemos perceber as grandes lacunas que não são mensuradas, como por exemplo a falta de tempo para cuidar de si, estudar, trabalhar, cuidar da família, entre outras. Situações presentes na vida das mulheres que acumulam funções em jornadas diárias e constantes de trabalho, que em alguns casos nem são considerados como tal.

FECHAMOS A NOSSA GIRA

Sou uma pessoa simples, porém luto sempre pelo melhor da vida, pois acredito numa passagem terrena digna e honrosa. Eu me empenho muito pra honrar a minha espiritualidade pois dentro do mundo que vivemos a grande maioria acredita que seguir a espiritualidade é padecer, e ser menor, e não ter nada de concreto. Eu discordo e sou prova viva que se você se propõe Deus e o sagrado dispõe. Sou negra, linda, ousada, e uma mulher religiosa que aprende a cada dia, como todos deveriam fazer. Agradeço a oportunidade de estar aqui relatando um pedaço da minha história.
Yalorisha Jacqueline Costa

Ao encerrarmos esse giro epistêmico com base nos saberes filosóficos do axé, podemos perceber que os caminhos trilhados através da espiritualidade e da religiosidade se entrecruzam com a experiência vivida apresentada nas narrativas da Yalorisha Jacqueline.

Compreender a importância desse cruzo é o objetivo principal desses escritos, ressaltando todas as intersecções e subjetividades presentes na existência, pois a episteme preta, apresentada pela Yalorisha Jacqueline é a episteme da vida, do caminho completo e menos fácil, mas que valoriza a jornada (NOGUEIRA, 2020).

Pensar sobre questões oriundas dos caminhos de mulheres negras, entrelaçando com a vivência de axé é uma tarefa que deve ser mais presente no cotidiano, compreendendo a necessidade de forjar epistemologias outras que irão ressaltar práticas que forma consideradas subalternas por um racismo religioso ainda hoje vigente em nosso país.

Aqui, ressaltamos saberes de uma ancestralidade que se apresenta em ritos, narrativas e mitos que se propõe a através do valor civilizatório afro-brasileiro do axé nos dar uma perspectiva diferenciada para as nossas ações futuras.
A narrativa da Yalorisha Jacqueline Costa vislumbra a necessidade de inserção de narrativas outras que comtemplem existências e subjetividades percebendo a relevância da experiência do vivido para refletir sobre saberes outros.

Que os saberes filosóficos do axé sejam cada dia mais divulgados e apresentados como formas únicas, porém diversas de busca de um sagrado que se manteve vivo e pujante nas comunidades de terreiro, e que apesar de toda a tentativa de desmonte deste arcabouço milenar resistem ainda hoje.

Encerramos com a esperança de que Yalorisha Jacqueline e tantas outras Yalorishas da diáspora possam passar seus saberes e que suas estórias estejam presentes nos diversos espaços, mas principalmente que nossa sociedade possa compreender e respeitar as práticas e vivências de terreiro, e não apenas tolerá-las.

Saberes filosóficos do Axé: narrativas de Jacqueline de Oyá e Airá_

o em construção dessa edição é o texto de Gisele Rose da Silva.

O material foi um dos selecionados na Chamada Aberta sobre “espiritualidades, religiões e religiosidades”.

Aproveite!

d’eus.
De vários eus, como afirma Linn [da Quebrada]. 

***

Já é segunda-feira. O som que me embala, agora, é outro: caminho acompanhado pelas letras e melodias do gospel. 
Fato interessante <será mesmo?>: ao final de cada ano, o Spotify prepara uma retrospectiva que faz um consolidado a partir do que a pessoa mais ouve, apresentando alguns infográficos e gerando algumas playlists baseadas neles. Em 2017 e 2018, produzi dados pouco convencionais (isso se basearmos nas comparações com amigas e com pessoas que postam suas retrospectivas nas redes digitais): na categoria de estilos mais ouvidos, funk e gospel; em músicas e artistas mais ouvidas, várias da Linn e tantas da Luma Elpídio, Bruna Karla, Canção e Louvor... Contraditório? Penso que não. Pode até ser, mas não necessariamente [e o contraditório é bom também!] <gosto muito dos sentidos dessas combinações de palavras: pode ser, talvez, quem sabe, ou não>. 

E o que tem isso de interessante? Duas coisas, penso. 
Primeiro porque confronta uma visão estereotipada de uma provável necessidade de cisão tanto dos estilos musicais, enquanto expressões de tipos diferentes de dadas culturas, quanto das pessoas que vivem e produzem e consomem esses tipos de artefatos culturais. É como se fosse proibido, por parecer incoerente para alguém, uma pessoa ouvir e cantar e dançar e curtir funk E gospel, viver contextos em que estejam presentes os dois estilos, as duas formas de expressão. Como se um não pudesse coabitar o território com o outro. Como se não existissem outros imbricamentos e misturas e fusões (o funk gospel é apenas um dos tantos exemplos).
Desdobrando esse pensamento para o campo gênero-sexualidade, temos outro problema. Antes, parece importar dizer que, em razão de julgamentos de caráter moral, se estabelece algum tipo de arquétipo que represente uma OU outra forma de viver-música [talvez Max Weber chamaria de tipos-ideias?]: funkeiras OU religiosas (ou ungidas, na língua dos memes). Ignora-se que possam existir, de novo, os atravessamentos e conjunções. Ainda, há um acoplamento de juízo de valor (moral) a essas figuras: bom e certo = religiosas [versus] mal e errado = funkeiras. Quando essa discussão é vestida de questões de gênero e sexualidade, qual desses padrões é comumente acionado para designar as pessoas dissidentes das imposições cisheteronormativas?
É uma tentativa de exclusão que, no limite, separa até a possibilidade da existência de alguma divindade para aquelas que estiverem desviadas do caminho estabelecido como o padrão. E aqui, quanto aos meus eus, seria pensar que (considerando que eu acredito em alguma deusa) eu não teria qualquer tipo de religiosidade porque gosto e consumo funk. 
Mas não é bem assim!
<esse é um assunto que me afeta bastante – tanto que essa escrita, desses parágrafos em específico, ficou travada por vários dias, precisando ser retomada e paralisada e retomada...>

***

Há tempos passo por essas discussões. Elas me atravessam desde criança, quando fui coroinha e fiz catequese, e nas tantas vezes que busquei religiões diferentes que pudessem me oferecer algum tipo de entendimento e conforto. Hoje, pensando sobre aquele tempo, identifico alguns questionamentos que já estavam presentes lá – e são ressignificados pelo que me toca no viver-agora. Assim como a Linn, fui crescendo educado por uma ética e moral cristãs (católicas, no meu caso) – parece que esse é um comportamento comum, sobretudo até meados dos anos 2000, quando acontece alguma inflexão cultural (?) e são reforçados outros modos de enxergar o mundo e a relação com o signo do divino.
Eu: católico apostólico romano que frequenta a missa e faz terços e rezas e lê e decora partes da Bíblia Sagrada e que canta os hinos/cânticos e recita salmos e ajoelha e faz catequese para estar digno de comungar o corpo e sangue de cristo e ajuda os padres e é fascinado por crucifixos e é bajulado pelas carolas da comunidade e foi batizado por três vezes (uma na igreja, logo ao nascer, outras duas nos batismos de fogueira – prática cultural que era comum nos sertões de Minas Gerais) <e se eu contasse sobre isso, em algum momento?>... Eu, também, que passou por várias igrejas de diferentes religiões, que professou a fé congregando e estudando semanalmente [com livros, bíblia, revistinhas] com as Testemunhas de Jeová (Linn era desta religião), que fez parte de comunidades protestantes, que fazia benzeção para alguns males (tanto eu operava o benzer, quanto recebia], que já se jogou na filosofia budista, que conheceu e se dedicou a entender a doutrina espírita, que já fez oferendas e ebós aos santos do candomblé e da umbanda... Eu, inclusive, que continuo imerso em práticas afro-brasileiras, sobretudo da umbanda, e que, filho de mãe cartomante (das boas!), se preocupa em estudar algum modo de praticar a mediunidade, e, ainda, está imerso em práticas xamânicas e da medicina da floresta. Eu sou espiritualista, respondo a quem me pergunta. Tenho bastante ligação com aspectos das divindades, mas não acredito no Deus escrito com d maiúsculo. Talvez profanando um conceito fundamental da filosofia deleuziana, diria que minha perspectiva do sagrado é rizomática...

“cartas d’eus”_

abre aspas nasce trazendo pedaços da minha tese de doutorado em educação em que reverberam as questões envolvendo religiosidades e minha ligação com as divindades e religiões.