Indica #4

2 poemas_

o que a gente indica nessa edição são 2 poemas que recebemos em nossa Chamada Aberta.
“Exposição” é de Bianca Silva.
“amar a própria diferença” é de Cleber Braga. Um poema escrito no contexto da eleição do presidente Jair Messias Bolsonaro e compõe a tese de doutorado intitulada “Fantasmografias: sexílio, arte e ativismos cuirdecoloniais na transfronteira mexicobrasileira”.
Aproveite!

Exposição
(Bianca Silva)
Você vem e me olha
alisa minhas costas
calmamente meus lábios te encostam
junto à cada ponta de seus dedos que invadem
inteiramente a mim.

Eu vou e te olho
atenta e dengosa
reviro, remexo, desdobro
sentindo cada toque de seus dedos
se moldando em mim.

Na cruzada de nossos olhares
tornamo-nos poesia inteira
o quadro completo e emoldurado
de duas mulheres arteiras
que se amam pintando o sete
Colorindo seus corpos entre os lençóis.


***


amar a própria diferença
(Cleber Braga)

existir
existir
existir para dissidir
seguir existindo
para não reproduzir
gozar em cada falha do cistema

não odiar os zumbis
sem tempo pra isso
cruzar com os olhos sem brilho dos ocos de alma
estufados de masculinidade branca militarizada
intoxicados de teocracia capitalística
fedendo colonialidades

não odiar, mas seguir

com cuidado
que é para não ferir o pés nos cacos das grandes utopias
debochar da marcha fúnebre rindo por dentro
ali onde ninguém alcança

sem ser pegx

porque os presídios aumentarão
essas novas senzalas serão mais numerosas
para escravizar o corpo sob a ideia de trabalho
em benefício das multinacionais que financiam golpe atrás de golpe
as máquinas de comer gente se multiplicarão
para parasitar o desejo
e matar a diferença

então não morrer
existir
amar a própria diferença

zelar por esta estranheza ingovernável
sem ensimesmar
- driblar narciso na fluência do rio -
fluir para não ensimesmar
dançar mais
cantar mais
escrever mais
amar nas articulações
quebradas
debaixo do nariz dessa gente cinza
amar mais e cada vez melhor

dedicar-se mesmo a isso

cupins a pulverizar a madeira maciça
coiotagem fronteiriça ancestral
ciganagem mediúnica pirata
acreditar
numa convicção inalcançável por qualquer uma destas narcoreligiões
existir
existir
amar a própria diferença

(Bahia, outubro de 2018)