Entre parênteses #4

uma carta: se não for a vida, eu não quero arte_

(E por aí a gente já escolhe muita coisa).

Eliane Brum tem um livro que se chama “meus desacontecimentos, a história da minha vida com as palavras”. Nesse livro tem um capítulo que chama “a invenção da escrita”. E, apesar de ser um tema legal, quero falar mais de invenção e menos de escrita. Acima de tudo, de domingos.
Ela escreve:
“Os domingos me mastigam desde pequena. Não só a mim, eu sei. Sinto que adivinharíamos os domingos mesmo se eles não tivessem sido inventados. Acredito que aquele homem que deixou impressa sua mão, uma mão com o minguinho torno na caverna de Sauver mais de trinta mil anos atrás, fez o gesto num domingo. Fantasio que ele precisava ter certeza que existia e forjou uma marca que atravessou o tempo. E foi num domingo que escrevi pela primeira vez, para não morrer. Se antes eu tinha escrito porque matei, dali em diante, e para sempre, eu escreveria para não morrer”.
Acho que não tenho muito mais o que dizer, na verdade.

Lembrei de quando você assistia The L Word escondido de tua avó e depois quando ficou com vergonha de falar que assistiu Garota Infernal. Eu assistia O Segredo de Brokeback Mountain escondido e tenho vergonha de falar que gosto de American Pie. Porque todo mundo diz que é muito ruim, né.

Por exemplo, a gente escolhe a porção de fritas do bar do juninho de dois mil e dezessete a nove reais, escolhe recolher o vidro da rua e embalar, escolhe strogonoff no r.u., escolhe brahma quando tá com dinheiro e proibida quando precisa contar moeda pra pagar duas por uma, escolhe aprender debaixo de uma escada, escolhe entrar e não travar no portão, escolhe chamar já que o interfone vive com problema, escolhe tomar sol no domingo.

É que esse ano caiu num domingo. Cada ano é num dia diferente. Ano passado, por exemplo, foi na sexta-feira. Mas esse é domingo. De qualquer forma, esse anos todos os dias são domingo. Então talvez esse seja o domingo dos domingos — e isso já parece dizer alguma coisa. Isto é, parecer querer dizer um pouco mais de melancolia, mais de cinza e mais de saudade.

Eu estava olhando umas fotos antigas pra fazer uns desenhos e vi que não temos nenhuma juntos. Não foi surpresa, já tem algum tempo que parei de tirar fotos em todo bar que eu vou ou todo truco que eu jogo. Daí pensei que não preciso de foto pra poder desenhar alguma. Ou caso eu precise, posso procurar “a gente” em alguma que eu esteja com outra pessoa. Por exemplo, essa aqui, olhando rápido, acho que consigo nos enxergar. Ou nessa. Ou nessa. Ou nessa aqui. A verdade é que também não sei o quanto a gente era tão dados às imagens assim.

Hoje eu ouvi um amigo falando do Gustavo. Lembra dele? Ficou me contando umas coisas que aconteceram e que eu não tinha ideia. Começou falando assim: Gustavo tem uma história que é muito forte e marca muito quem ele é. Entendi. Pensei por um momento que estava falando de mim ou de qualquer outro que eu conheço. Mas não era. E eu só descobri isso porque a historia é diferente. Mas começa a achar que a gente poderia começar assim também: temos uma história e ela marca muito quem somos.

Outra amiga escreveu agora mesmo: eu nem imaginava que ela passava por coisas assim em casa. Foi um caso e uma casa lá no Rio de Janeiro. Elas só se falavam pelo Instagram. Eu diria que foi num domingo, mas nem foi. Foi quarta-feira mesmo.

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texto e ilustração: neilton dos reis, editor