Entre parênteses #8

um transplante de cabeça_

A primeira vez que entrei em uma sala de aula era uma quarta-feira. Eu me preparei, fiz 4h de apresentação de slide e separei uma poesia de Eduardo Galeano. Me senti o melhor professor dos melhores professores que eu já havia tido. Eu devia saber tudo sobre membranas plasmáticas e outras coisas que vivem dentro da gente, mas que não são a gente.

Falei muito. Fiz esquemas. Agitei as mãos.

Terminei as boas-vindas daquela turma e minhas boas-vindas a uma sala de aula como professor. Estava contente e já queria repetir o meu sucesso na sala do lado.

Ia terminando de fechar meu computador quando um estudante perguntou se podia perguntar.

“Professor, pode haver um transplante de cabeça?”

“Eu não sei. Posso procurar pra você. Te trago na próxima aula”.

Um transplante de cabeça?
Será que esse cara não ouviu nada do que eu disse. A gente tá falando de células, proteínas e poesias de Galeano. Em nada estamos falando de transplante de cabeça!

Naquele dia qualquer coisa não fez sentido pra mim.
Ah, ele deve ter visto isso em algum programa de emissora duvidosa na madrugada, esquece Neilton.

E por muito tempo esqueci. Mas alguma coisa ficou.

Das muitas coisas que poderia ter pensado nesses anos como professor e alguém que está sempre pensando em educação (isto é: o que podemos fazer nas Ciências e Biologia para conectar com saberes das discentes? Quais outros lugares educam pras Ciências e Biologia? Quais corpos estamos falando no Ensino? Como trabalhar temas que importam/interessam?), eu só fiquei com uma questão.

(Até onde sei ela não está mesmo na camada lipoproteica ou em Galeano ou em esquemas. Elas só está em mim. E naquele homem que nunca mais vi (que desistiu da minha aula e do curso algumas semanas depois).)

Por que alguém iria querer fazer um transplante de cabeça (ou de corpo a depender do referencial)?

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texto: neilton dos reis