Entre parênteses #1

um band-aid de comédia romântica para sair do armário_

Eu não sabia o que escrever sobre o fora do armário.
Retomei uns textos, não adiantou.
Liguei para alguns amigos, também não.
Então abri o computador para (re)assistir a um filme. Escolhi “Com Amor, Simon”.

(Já começo a achar que esse texto pode causar qualquer frustração por não usar de referências decoloniais (ou minimamente brasileiras) para dizer desse tema. Mas enfim, (eu que) lute.
Aliás, por que logo vem à mente a necessidade de referências acadêmicas quando penso no tema “fora do armário”? Que decepção! Ainda bem que temos hollywood! Para tampar nossas decepções com um grosso band-aid chamado comédia romântica.
Bom, vocês vão precisar dessa referência para ler isso aqui. (Só essa, aliás).
O ano é 2018 e a FOX aposta no seu novo sucesso colegial: “Com amor, Simon”. A sinopse: “Aos 17 anos, Simon Spier aparenta levar uma vida comum, mas sofre por esconder um grande segredo: não revelou ser gay para sua família e amigos. E tudo fica mais complicado quando ele se apaixona por um dos colegas de classe, anônimo, na internet”.)

(Uma forma de ganhar dinheiro com a pauta lgbtqia+? Talvez. Representatividade importa? Também. Um filme que devemos considerar por ser feito pra um público grande? Inclusive. Não quero falar disso agora.)

O que acontece no filme é isso: o Simon é gay e o Blue também; e eles ficam se correspondendo por email e “não sabem quem o outro é” (sic). A trama segue nisso: sobre descobertas, paixões jovens e frescas, música boa e finais felizes.

Então, vamos lá!
Tem um momento que Blue escreve para Simon:
“Acredita que estou considerando aproveitar esse momento ridículo para sair do armário? Acha que estou louco?”
“Não, Blue, não acho que esteja louco. Acho que é loucamente corajoso.” (foi a resposta de Simon).

No momento seguinte, Simon:
“Querido Blue, espero que dê tudo certo com seu pai. Aconteça o que acontecer, você me inspirou. Hoje contei a uma amiga que era gay. E nunca o teria feito sem você. Talvez devêssemos aproveitar o surto de coragem e revelar quem somos.
Estou ansioso para saber quem você é.
Com amor.”

E a resposta de Blue:
“Contei ao meu pai.
Foi incrivelmente constrangedor.
Mas também meio engraçado.
E entendeu ao contrário. Você é que me inspira.
Mas lamento, não estou preparado para revelarmos quem somos.
Com amor, Blue”.

Apesar de eu amar fazer as pessoas lerem esses diálogos só por lerem, não é apenas por isso que coloquei aqui. O que quero é que reparem no que essas partes do filme parecem querer ensinar a todas nossas poc’s colegiais que estão apaixonadas (ou quase isso): para revelar quem somos (para sair do armário) é preciso coragem.

(Também não vou entrar na questão atacável de “revelar”, mostrar o que estar escondido, contar de uma suposta essência. Desculpe frustrar de novo.)

Quero ficar só na coragem mesmo.
Coragem enquanto pressuposto pra gente falar qualquer coisa sobre nós. Coragem enquanto descoberta de algo que temos. Coragem enquanto uma coisa que a gente vai construindo, gestando. Coragem que a gente não tinha (ou não podia) ter quando era mais nova. Coragem, por exemplo, de dar o primeiro beijo (o primeiro da vida) ou o último (o último daquele dia). Coragem de perguntar: “você é, né?”. Coragem de responder: “sim”. Coragem enquanto pista pra gente saber mais de nós mesmas.
O que, de mim, eu preciso ter coragem pra dizer?
Dizer pra quem?
Que eus?
O que eu não quero dizer?
De que armários saímos?

(Sou capaz listar:
Para revelar que eu sou alguém que hoje preferiu re-assistir “Com Amor, Simon” a “Hoje eu quero voltar sozinho” (ou Tatuagem, ou Madame Satã).
Que eu sou alguém que ficou feliz quando o filme acaba no horário de começar o BBB ou A Fazenda.
(Que eu sou alguém, aliás, que está esperando a estreia de A Fazenda.)
Alguém que escreve todo dia, dia após dia.
Alguém que se finge de bobo às vezes pra não lavar a louça.
Alguém que faz terapia há 3 anos (e nem imagina a vida sem isso).
Alguém que sonha em publicar algo relevante pra alguma gay adolescente, que a permita sonhar com amores.
Alguém que ainda queria ser uma gay adolescente sonhando com amores sem defeitos.
Alguém que chora com blockbusters hollywoodianos.
Revelar que eu sou alguém que escreve sobre “armários” há anos e ainda não sabe escrever “de qual saí”.)

E é isso.
Ainda não sei se sei escrever sobre o “fora do armário”.
Talvez só saiba que “Com amor, Simon” é uma grande lista de coragens a assumir. De armários a sair. Ou que, a partir de qualquer lista como essa, podemos filmar comédias românticas hollywoodianas de sucesso. Ou que o fora do armário só é “fora do armário” (assim com essa importância) porque temos assistido a muitos filmes. (Não se bem que não). Ou então que a gente vai saindo do armário continuamente, dia após dia, momento após momento, com tanta coragem que nem percebe mais.
Talvez.

(Mas imagina só se cada uma de nós arrumasse coragem e fizesse sua própria lista.)
(Sei lá, tem espaço nos comentários...)

Com amor,
Ne.

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texto e ilustração: neilton dos reis, editor