Entre parênteses #7

Estou lendo o livro da Butler no ônibus enquanto penso sobre tudo que tem acontecido. Daí penso se ela imaginou, quando veio ao Brasil em 2015, que a gente chegaria onde estamos hoje.

(Eu estava lá quando ela veio. Era feriado. Uma Salvador quente com cheiro de coisas que duram 2 meses e três cidades).

Ela fez uma palestra bem comportada na Universidade. Mais tarde eu apresentei um trabalho também bem comportado.

(Mas não quero falar de Butler ou de mim. Ou só da Bulter ou só de mim).

Naqueles dias aconteceu algo muito mais simbólico e que sinto que tenha reverberado mais que a própria visita da Butler.
Miro Spinelli produziu uma performance: “gordura trans”. Viralizou. Um corpo gordo, transgênero e jovem besuntado em óleo de dendê no centro de um dos maiores eventos acadêmicos do ano.

Foi demais. “Só falou ser preto”, posso ouvir algumas pessoas comentando.

Aquilo tudo foi demais. Foi exagerado. Foi culminância e, ao mesmo tempo, o start de um tanto.
Eu tinha 21 ano à época e estava completamente encantado com aquilo tudo.

Nos vício do pensar (do nosso pensar ao que fui ensinado) lembro de me perguntar como que alguém em óleo de dendê poderia produzir conhecimento. Mas joguei para o campo da arte e “resolvi” o problema comigo mesmo.

Pensar de outra forma.
Era arte, sim. Era performance e disparava afetos, sentimentos, paixões e estranhezas. Era arte.
Mas era também. Ocupava outros lugares.
Ocupava lugar de conhecimento junto. E tinham muitas ali: acionando novas “categorias”, repensando categorias, falando várias línguas, questionando até o que tínhamos chamado de transgressor.

Foram milhares de pessoas. Muitos corpos. Muita gente com cara de gente desfazendo gênero. A gente nem sabia direito o que tava fazendo.

(Quer dizer, eu não sabia direito o que eu tava fazendo).

Mas era tão bonito, chegava a brilhar. Igual fogo.

Eu juro que queria discutir isso teoricamente com o texto da Butler que li. Juro que a ideia inicial dessa escrita foi essa.
Mas estou saudoso demais pra isso.
Ressentido demais, talvez.

Eu voltei da Bahia e fui tomar cerveja e comer pastel de queijo com umas amigas lá em casa. A gente tentava pensar de outra forma ali também.
A gente entregava tudo que pediam da gente na Universidade. Mas conseguia fazer outros.

Tomamos o hotel e fizemos de alojamento. Tomamos a Nova Dutra pra queimar pneu e panfletar fanzine. Tomamos a reitoria pra dormir.

Nos besuntamos de óleo enquanto comíamos pastel de queijo.

pensamos de outra forma e não gostaram_

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texto e ilustração: neilton dos reis.