Entre parênteses #2

(Isso aqui é uma grande mistura de filmes)

Podemos começas com Para todos os garotos que já amei. (A comédia romântica jovem que diz de cartas, amores antigos e a forma como podemos inventar mentiras e paixões).
O filme dá vontade de escrever:
Querido rapaz que me encontrou (um tanto bêbado) (e de madrugada) nas ruas de pedra de Paraty.
Boy que me mandou uma mensagem dizendo que dava pra entrar na encolha pela porta da garagem.
Menino que tentou me levar para os fundos da escola na hora da aula-vaga.

(E como sua protagonista diz: “Não são cartas de amor no sentido mais estrito da palavra. Minhas cartas são de quando não quero mais estar apaixonada. São cartas de despedida. Porque, depois que escrevo, aquele amor ardente para de me consumir. Posso tomar o café da manhã sem me preocupar se ele também gosta de banana com cereal; posso cantar músicas românticas sem estar cantando para ele”).

Uma vez escrevi ao cara que mora longe e que eu terminei de escrever no ônibus, dizendo que minhas cartas ganhavam certo tom de despedida. (Engraçado que aquilo foi mesmo uma despedida).

(Mas por causa das despedidas, vou pular de uma comédia romântica à outra).

Que maldito romântico.
Em um quarto que cabem não mais que catorze pessoas muito apertadas, ou duas um pouco mais cômodas assistindo qualquer coisa, alguém assiste um filme.
Em uma das últimas cenas de Weekend, os dois protagonistas se encontram em uma estação de trem no clímax mais aguardado do filme. Glen vai fazer a viagem da sua vida e Russell vai lá se despedir.

“- Então esse é o nosso momento Notting Hill?
- Sabe que nunca vi esse filme, nunca.
- Nem eu, mas eu imagino que haja uma declaração de amor e todos aplaudam.
- Sim
- Acha que isso aconteceria conosco?
- Não sei. Você poderia tentar.”

Não lembro se tem um beijo, mas lembro que não tem aplausos. Existe toda uma tensão de um dos protagonistas pela questão de ser gay e o afeto no espaço público. Mas, em um lugar diferente desse, existem as despedidas.

(Agora: imaginem um menino com duas malas grandes que atravessa uma estação de trem duas vezes. Imaginem esse menino sorrindo, esperando outro menino. Imaginem o peso das malas fazendo a mão ficar vermelha. O calor daquele peso rompendo o ar frio vem de fora da estação).

Há qualquer coisa nas despedidas que quando a gente é mais jovem achamos que são definitivas e estão encerradas em um espaço. Talvez em alguma forma de pensar mais filosófica sejam (já que no reencontro o Menino-Outro será outro Menino-Outro, e o Menino-Eu será outro Menino-Eu). Mas no plano daquilo que fica registrado na vermelhidão das mãos, bom... parece não ser definitivo.

(Em um quarto de 9m² um menino assiste um filme que termina com uma despedida).

Um dos meninos, do filme, dá um sorriso. O outro também sorri. O primeiro é como se fosse:
“Você é um cretino por vir aqui. Que foda!”.
O segundo só sorri em concordância.
O som é cortado e o menino que assiste o filme não sabe o que aconteceu. Não sabe se vai se identificar mais com um sorriso ou com outro. O vermelho das mãos não machuca mais.
“Que maldito romântico”, ele ouve.

(Sorri).

Sorri transportado para outro filme. Início dos anos 2000 (final dos 1990?). Hugh Grant. Julia Roberts. Notting Hill.
É, “não esqueça que eu sou apenas uma garota, parada na frente de um rapaz pedindo a ele que a ame!”.
Depois disso, só precisamos mesmo ficar parados no lugar que estamos.
(Ouvindo isso ou dizendo isso).

E aí, movimentar.

para todos os garotos que já amei em todos os weekends que eu já tive no lugar chamado notting hill_

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texto e ilustração: neilton dos reis, editor