Entre parênteses #3

As igrejas parecem todas iguais. Correção: eventos de igreja parecem todos iguais. O cheiro, o calor de quem economiza no ar condicionado e, principalmente, o burburinho.

- ... Nós estaremos vendendo também o pão de nossa senhora. Tá no valor de 5 reais e depois do evento quem quiser estar adquirindo. É uma delícia, né Neide?

Como dizia, o burburinho interrompido por vezes por algum anúncio ao microfone mal instalado. A plateia de hoje é grande. Bem maior que o (meu) esperado. Mas não há um barulho ensurdecedor nas conversas (como veríamos numa academia, num ginásio esportivo ou numa sala de aula da Universidade).

- Opa, tudo bom? Você é de qual paróquia?
- Sou novo aqui. Era do Rio, Diocese de Itaguaí.
- Ah, você veio estudar aqui no seminário?
- Não. Vim pra Universidade.
- Ah, sim!

A minha “conversa” é interrompida para o início da fudelância. Sempre admirei convites para orgias, surubas e afins. Mas sempre detestei a palavra “fudelância” – com certo tom de asco, nojo, aquilo que não parece que dará prazer. E foi isso que aconteceu naquela noite: uma fudelância. Os participantes são chamados a penetrar no palco: 10 vereadores, 2 vereadoras, 1 representante de vereador, 1 padre, 1 juiz e 1 arcebispo. Todos para falar, supostamente, de uma temática: o debate de sexo/gênero no plano municipal de educação.

As duas palestras (do padre e do juiz) comentadas pelo arcebispo produzem um saber sobre o assunto, inegável. Mas, igualmente inegável, parecem ofender a inteligência de qualquer pessoa com acesso ao Google e com disposição de ler outras fontes. Quando Judith Butler é tratada como feminista radical e Simone de Beauvoir com parte de um “existencialismo ateu”, há que rir (e chorar). Os eventos de igreja são todos iguais. O silêncio na plateia é ensurdecedor, interrompido apenas pelos aplausos quando alguma fala de efeito e proclamada. Os caderninhos são rabiscados sobre os conhecimentos produzidos. Anotações de frases feitas que nunca mais serão lidas (espero).

No entanto, se engana quem pensa que esse é um debate sobre sexo e gênero. Ou sobre Educação. Essa é uma negociação política e algumas pistas nos mostram isso: o arcebispo utiliza da presença de um auditório lotado para dizer das milhares de pessoas (e eleitores) que a igreja católica representa na cidade; os “irmãos evangélicos” são trazidos para a conversa como aliados (nesse momento o são); cada vereador e vereadora faz questão de ter seu momento de fala (ainda que para repetir o que já foi dito); todos se comprometem, reconhecendo os “perigos da ideologia de gênero.

É apresentada uma proposta de ementa no plano (onde é citada a palavra “diversidade” a proposta é acrescentar que ela não se refere às diversidades sexuais e de gênero). E então, chegamos ao momento ápice da fudelância, o gozo do arcebispo, a porra dos vereadores jogada no rosto dos fieis. Um vereador diz: “aqui estamos 13 dos 19 vereadores da Câmara, já podemos aprovar essa ementa? Já podemos?”. A plateia vai à loucura entre aplausos e gritos, se lambuzando com o ápice.

Percebo, por fim, que se o debate de gênero é importante, o debate sobre laicidade é urgente. Percebo-me perplexo com aquilo tudo. Percebo que estamos entregues a essas negociações. Percebo que os eventos de igreja são todos iguais. As pessoas saem comentando e entreouço: “aquele primeiro padre é tão inteligente, mas tão inteligente... não entendi quase nada do que ele falou”.

Percebo que estamos fodidos (em uma fudelância).

estamos fodidos (e não no sentido que gostaríamos)_

texto e ilustração: neilton dos reis, editor

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