resenha

encontros: fazer comunidades de afinidades e mudanças_

A resenha dessa edição é uma construção a partir do fanzine “Encontros” de Livia Abbade.

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A proposta é que não reduzamos a comunidade às instituições, organizações e coletivos (no sentido de movimento social). (Como o Coletivo Duas Cabeças, por exemplo). Não reduzamos a apenas isso. Ainda que faça parte — como contamos nessa Edição na seção Conversa. Mas que voltemos o olhar, todos os outros sentidos e o coração aos trabalhos coletivos que dão vida, sentido e forma àquilo que queremos chamar comunidade. E, assim, assumir que não “somos comunidade”, mas “fazemos comunidade”!

 

Essa mudança interfere, ainda, na forma como nos relacionamos entre a gente e com outros seres não-humanos. O que quero dizer: se os vínculos de uma dita comunidade se limitam a uma instituição, então nessa perspectiva, não fazem comunidade. Os vínculos em comunidade estão no âmbito do comum: aquilo que se constrói para dar continuidade, para “fazer com que a vida siga sendo vida” (ZIBECHI, 2019, p. 59).

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se eu pudesse escolher um dia,

seria esse domingo já

na piscina ou não

com paletes de madeira ou não

colocando desenhos escondidos em máquinas de música ou não

mas, domingo

urgente!

pela forma como você assiste filmes nesse dia

e me escreve cartas desesperadas enquanto observa as luzes dos carros,

pelo jeito como vai me contar daquilo que está pensando para o próximo verão

e que nunca vamos realizar,

pelos apelidos que chamam

e que nos fazem rir e pensar,

mas, principalmente,

por aquilo que lemos juntas, enquanto gritávamos e dizíamos que era o texto das nossas vidas.

é, seria esse domingo.

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cabia até mais cor,

se você quisesse.

eu ia atrás,

buscava naquela papelaria de beira de estrada do Km 49,

ou parava antes, no Km 32, da mesma Rio-São Paulo.

sim, eu era capaz de parar no Km 32 para te buscar cores

(e isso diz muito da minha vontade de te encontrar com as mãos sujas de tinta).

 

Silvia defende que sua ideia de comunidade se localiza numa justaposição entre os legados de diálogo entre humanos e não humanos e o ideal de liberdade. É o que ela vai chamar de comunidade de afinidade, encarando que já não podemos esperar comunidades que estejam conectadas unicamente pelo parentesco. E bem sabemos disso, não é amiga? Como ela diz: 

“Às vezes se repudia a família de sangue para entrar na família virtual de irmãos, irmãs em luta, isso é afinidade. Para mim, sempre foi uma afinidade ética e estética, tanto com meus primeiros irmãos e irmãs THOA, quanto atualmente, com o Collectivx Ch'ixi” (CUSICANQUI, 2019, p. 186).

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uma vez eu ouvi você dizer

que nem pra isso homem servia

às vezes, acho que você tem razão, viu

 

E também não que seja qualquer comunidade de afinidade que esteja lutando pela vida. Há muitas formas de construir o mundo, inclusive com políticas de morte. A afinidade por si só não vai nos garantir nada em específico, apenas essa forma de compreender o fazer comunidade. Como ela diz: “existem comunidades ultra-reacionárias também, existem comunidades do santo sepulcro e não sei que merda, que se flagelam, são afinidades também” (CUSICANQUI, 2019, p. 191). Não seria difícil pensar em exemplos mais próximos aos nossos também, não é mesmo? Comunidade de homens e mulheres que defendem presidentes de extrema direita? Comunidade de racistas? Comunidades online de reacionários?

São, assim, as afinidades com a vida que podem unir (nos unir) e “resolver as coisas”.

 

E quando ela fala em “resolver as coisas”, não leia apenas no sentido de “fazer revolução”. Ela explica que “é também para viver e para gozar da vida”.

 

“Porque o presente e o dom da vida merecem ser acolhidos com amor e alegria. Eu te digo porque já estou na reta final, cada minuto é como saborear o elixir da vida, porque você já sabe que isso tem seus limites. É importante saber que a vida é recuperada e reconhecida de maneiras muito diferentes dependendo da idade” (CUSICANQUI, 2019, p. 186).

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tem coisa que a gente precisa voltar

e abrir a página.

eu não sei se você sabe disso,

mas entre as páginas de um livro

ou de uma receita médica,

tem outras páginas.

muito escondidas.

coisa tipo a roupa do rei,

que só os inteligentes viam.

só que melhor.

essa só quem quer vê, vê.

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ele gosta do leonardo,

como gostei de josés, thulios e amaros.

como tu gostou de anas, gabrielas e aparecidas.

e como Babalu gosta de colocar salto e uma blusa brilhante para dançar em fevereiro enquanto amava paulas e bebetos.

 

Em um epílogo publicado em livro de Raúl, o Colectivo Situaciones de Buenos Aires elenca algumas notas para entendermos o sentido que promovem de comunidade. Destaco essa publicação curta, pois percebo que vem de uma construção plural e conectada tanto entre as pessoas internamente, quanto com a literatura do campo da descolonização. Então, se eu precisasse definir comunidade de alguma forma, seria essa, acompanhando o Coletivo:

“Comunidade é o nome de um código político e organizacional determinado como uma tecnologia social singular. Nele se conjuga uma aptidão muito particular: a do advento, através da evocação de imagens de outros tempos — e de outra forma de imaginar o próprio tempo — de energias coletivas atualizadas. A comunidade, em movimento, ela mesma movimento, desenvolve-se assim como uma eficácia alternativa, onde podemos perceber uma inusitada gratuidade nos vínculos. A comunidade nomeia assim uma disponibilidade sempre alerta, sempre generosa para com o comum” (COLECTIVO SITUACIONES, 2006, p. 215).

 

A comunidade é, ela mesma, movimento e faz movimentações. Traz em si uma aptidão para o advento(que coisa bonita!). Adventar novos mundos, imaginar, criar.

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saída ao lugar que queremos

ao lugar que temos medo

ao lugar que é possível

ao lugar que não cabe mais nada

ao lugar que tem espaço demais

ao lugar que só bate sol numa hora específica do dia

ao lugar que tem goteira

ao lugar que nem parece que é nosso

ao lugar que a gente precisa defender

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envie uma carta ao neilton de 2014

faça uma das suas mágicas

diga qualquer coisa a ele

invente que o Power Rangers Força do Tempo aconteceu

(ele vai saber do que se trata),

fale de Cloud Atlas,

ou da quinta temporada de Lost.

ele também vai entender.

só avise isso:

início de um sonho / deu tudo certo.


Tudo isso, me coloca também na intenção de criar uma “comunidade de mudanças”. Djonatan Kaic Ribeiro (2020), em artigo ainda no prelo, mas também em exposições orais, ajuda a construir essa noção de comunidade de mudanças.  Se dirigindo diretamente a pessoas que promovem agendas críticas à sociedade (sejam sujeitos de movimentos sociais, sejam pesquisadoras de Universidades, sejam estudante, etc), ele explica que esse fazer comunidade, “é desestranhar-se do emaranhado da violência e resistências da desintegração colonial, machista, racista, classista destruidora do Outro é buscar formas de implicar-se positivamente na produção das mudanças nas formas de agir, pensar e sentir” (RIBEIRO, 2020, p. 9).

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novas formas de cantar

como naquele dia que dançamos a música do cipó...

 

...e novas formas de amar,

como naquele dia que a gente inventou todo o universo.

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Como aponta Arturo Escobar (2016, p. 208), é necessário um cuidado epistemológico para que eu também me “veja também envolvido na mesma ação coletiva e com ela interagindo”, pra que eu entenda que a coletividade não se encerra quando abro o word para escrever esse texto, mas está imbricado no fazer, no criar possibilidades, no imaginar mundos, no produzir vida.

Eu consigo entender isso quando leio Silvia, ou Kaic, ou Raúl. Mas também quando aprendo contigo.

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encontros, como os nossos, não são pra alapar

texto: neilton dos reis.

imagens: lívia abbade.