Editorial #6

Existem algumas coisas que precisam ser expostas sobre essa revista, essa edição e essas cores.
Pretendo falar de tudo isso aqui nesse editorial.

Mas, primeiro, não dá pra ser diferente: precisamos falar de Jojo Todynho.
A funkeira que estourou no Brasil com “que tiro foi esse?” entrou no reality show A Fazenda na última edição e, desde a primeira semana, anunciou que tinha uma tese sobre a competição. Questionada, ela explicava. Dizia por que e como entendia tudo aquilo. Escolhia as palavras. Mudava de opinião algumas vezes. Refazia. Até que, já no final, ela declarou: “comprovei que não estava maluca na minha tese”.
Jojo teve sua tese certeira, comprovou e ganhou o jogo.
Entendi que sim, muitas pessoas fazem muitas teses e ganham jogos de diferentes formas.
Mas por que estou falando disso? Porque o que fazemos aqui na revista talvez não seja assim tão distante ou diferente.
Não estou em A Fazenda (ainda), mas sim na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, no curso de doutorado de um Programa de Pós-Graduação. Faço uma pesquisa e, como Jojo, jogo um jogo e elaboro uma tese.

A revista_ duas cabeças nasceu também desse lugar de jogo acadêmico.
Ela me ajuda a discutir os temas que gosto de outra forma. Ela está encharcada de pesquisa e minha pesquisa está encharcada dela.

E como regrinha, existe a (des)qualificação: onde pessoas que você convida colaboram com teu trabalho cada uma da sua forma. Isso vai acontecer, no meu caso, no próximo dia 18. Essa sexta edição traz alguns recortes dessa tese em contrução.
Aliás, a minha tese é de que as pessoas lgbtqia+, ainda que atravessadas por necropolíticas, fazem comunidades atualizando o Bem Viver em suas vidas e imaginando novos mundos possíveis. E que isso é uma prática educativa.
Por isso essa edição se chama: “costurando whipalas, construindo comunidades”.

E aí, preciso falar de whipalas.
A Whipala é uma bandeira de origem andina. A palavra tem origem nas palavras da língua aimará e significa alegria e sonho produzidos por conduzir uma bandeira.
Suas cores, são as do arco-íris.
A primeira vez que vi uma whipala, pensei que se tratava de uma bandeira do arco-íris lgbtqia+.
Fiquei com isso na cabeça. Tanto que, quando quero falar de comunidades lgbtqia+ em uma perspectiva que seja da descolonização latino-americana, as duas bandeiras se misturam.
Mistura é o que trazemos nessa edição, que dá um gostinho do que tenho produzido na pesquisa.

A edição reúne: playlists e ilustrações feitas por mim, assim como textos no aprendi no coletivo e podcast; o conversa é uma montagem que traz Bruna Irineu, Julio Simões, Regina Fachini e João Trevisan para o diálogo; o convida é de Flávia Péret, amiga de pesquisa que trz um trecho da sua tese; e uma resenha de um fanzine de Livia Abbade.

Tudo isso, inspirado em Jojo e sua tese.
Formas simples, nas suas próprias lógicas de sentipensar e se mover em um jogo.
Eu espero que gostem das cores.

Vem!

Jojo, bandeiras e (des)qualificações_

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texto: neilton dos reis, editor.