Convida #5

Roney: sobre meus encontros com Bruna Leonardo - (r)existência com luta, coragem e generosidade_

o convida dessa edição é com Roney Polato, Professor Adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, que conta de seus encontros com Bruna.

Bruna é dessas mulheres ditas ‘guerreiras’, que está sempre disposta para lutar pelos seus direitos e pelos de outras pessoas trans e LGBTI+ de Juiz de Fora/MG. Posso dizer que ela é uma das mais aguerridas militantes da cidade. Foi assim que a conheci e que dela me aproximei, em contextos de luta e de debate. Muitas foram as vezes em que solicitei que Bruna estivesse comigo em ações educativas, em cursos ministrados para docentes da Educação Básica e em disciplinas por mim ministradas na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Sua presença foi e é, sem dúvida, importantíssima para que essas docentes e estudantes de licenciaturas tenham seus saberes deslocados e que novas experiências sejam construídas. Pode ser surpreendente para algumas pessoas que lerão este relato, mas com muita frequência, nesses contextos educativos, Bruna era a primeira pessoa trans com a qual docentes e estudantes tinham contato direto. Isso é significativo para pensar nas exclusões que são fruto de um (c)istema que deslegitima a existência de pessoas trans, em especial nos espaços públicos e nas instituições sociais. No contexto de uma universidade ainda pouco democrática, quando se trata das experiências trans, a presença de Bruna faz a diferença.

Como pessoa trans, Bruna narra suas experiências com disposição e coragem, expondo episódios de luta e os percalços que fazem parte dessa trajetória. Como estou vinculado ao campo da educação, sempre solicitei que Bruna pudesse compartilhar conosco suas experiências com a escola. Destaco uma das falas mais recorrentes em sua narrativa, que é significativa para pensar a relação das pessoas trans com os processos de escolarização (creio que Bruna não se importará que eu conte). Ela nos conta que sempre evitava ingerir água ou qualquer tipo de líquido antes de sair de casa para a escola. Também no espaço escolar, evitava tomar água. Tudo isso porque o receio para com o uso do banheiro era atormentador. O banheiro era (e ainda é) espaço de violências, seja na escola ou em outros espaços públicos de convivência. Um direito básico que é constantemente ferido, negado.

Com Bruna, as/os docentes e estudantes de licenciaturas aprendiam uma dura lição: a escola não é um espaço bom para todas as pessoas, ela pode ser um espaço de muito sofrimento. E que, frequentemente, profissionais da educação estão envolvidas/os com esse sofrimento, ignorando ou compactuando com episódios de violência vividos no contexto escolar, quando poderiam proteger e cuidar. A coragem do relato de Bruna não apenas narra as situações de perseguição e constrangimento pelas quais ela passava numa escola da rede privada de Juiz de Fora, mas caminha em duas outras direções. Primeiro, a denúncia da invisibilidade e do silenciamento históricos que as instituições escolares (salvo raras exceções) vêm impondo às pessoas trans e LGBTI+. Mas, Bruna vai além da denúncia, ela nos convida a pensar em anúncios de uma outra escola, na qual as violências sejam combatidas e os direitos de todas as pessoas sejam garantidos.

Por esse motivo é que falo em generosidade. Com a presença de Bruna podemos colocar sob suspeita nossos saberes, nossa formação. O que sabemos sobre pessoas trans? De que modos podemos ser afetados por suas (r)existências? O que sabemos sobre gênero? Como o gênero nos normatiza, nos enquadra, nos molda? Como nossa atuação profissional no campo educacional afeta a vida de pessoas trans? Assim, podemos investir numa formação de profissionais da educação que inclua a problematização de nós mesmas/os e as proposições de outros espaços educativos, nos quais todas as pessoas possam aprender-ensinar com menos violências, constrangimentos, discriminações. A generosidade e a disposição de Bruna para a luta e para a partilha de experiências é algo admirável. Agradeço a oportunidade de tê-la conhecido e poder partilhar momentos de tantos aprendizados.

Viva Bruna!