Convida #7

Hamilton Vieira: que as insurgências estimulem assoprar cinzas_

o Convida dessa Edição é com Hamilton Édio dos Santos Vieira, autor da teses “De lá para cá ou dos percursos que a diversidade sexual faz na constituição de uma política na UFSCar (2004-2016)”.
Ele escreve um pouco sobre sua pesquisa que está na seção acadêmicah dessa edição.

Uma pesquisa acadêmica jamais termina com o registro escrito e toda a ritualística que diz validar aquele estudo. As palavras estão lá e pulsam vivamente por sentidos outros, das quais tessituras delicadas das interações com a leitura deste texto possibilitam (talvez) emergir esta outra margem do grito. Como clareiras que se abrem sorrateiramente e pulam de lá para cá, é pelo passeio do leitor que se revolve a terra-existência, e fertilmente plantam-se outras inferências, saberes e o sujeito-mundo/sujeito-eu/sujeito-outro. E tudo pela deliciosa premissa do instável, do não necessariamente vai ser assim.

Entre o encontro (ou choque) daquilo que atravessa eu e outros, nas pontes e des-alinhavos dessa delicada trama de fios, vivências e outros sentidos, que esta pesquisa teima em viver e aviva-se a cada re-toma/da. Para além dos recursos metodológicos nela adotada, espaço de negociação da palavra entre diferentes sujeitos envolvidos na construção de uma pesquisa acadêmica, estas trilhas escritas em tese registram-se como um panorama em recortes e des-acordes do grande agito nas políticas universitárias nos meados da primeira década do nosso século XXI, movimentadas entre a institucionalidade administrativa e aquilo que explode entre corpos e enunciados no cotidiano da vida ordinária e material.

Vidas em trânsito de corpos produzidos por sentidos na/com/pela palavra. Vidas precárias materializadas em um espaço educacional historicamente excludente dessas outras cores e sabores, de dores e das delícias que produzem e são produzidas daquilo que incendia e faz da cinza sua insurgência.

O campo da política em um espaço universitário enquanto força da palavra, da constituição destes sujeitos nestes espaços do escrito documental nas políticas institucionais de uma universidade. Um campo de urgência destes insurgentes corpos, que materializados nestas políticas outras (como as ações afirmativas) ecoam vozes, movimentam palavras e articulam sentidos sobre suas existências, ali naquele momento em que a pesquisa também acontecia. Corpos-matérias que que se reconstroem gramáticas de audiências que tencionam esse lugar do dito e não dito e daquilo que sacode aqui e acolá, e que implodiram o pesquisador-sujeito-vivente posto que aqui revisita por entre cinzas movimentadas por este outro convite ao sopros, que foi/é e constituindo junto neste incêndio, cuja as cinzas tornaram seu ponto de partida para um volta pra lá para o cá ser melhor bagunçado.

Aqui enquanto revisitamos estes caminhos, por entre densas pedagogias da sexualidade e a grande clareira aberta expondo o que exclui/cala/silencia, revela percursos e pontes entre diversidade (lá) e a produção de sentidos ecoados em diversidade sexual (cá) em um percurso nos documentos produzidos em um recorte temporal destes caminhos destrilhados do movimento da palavra, percorrendo os processos singulares de uma universidade pública federal no interior do estado de São Paulo. Daquilo que joga em movimento a palavra-humana-dissidência.

Reconstrói, refaz e cria outros lugares. Produzidos numa temporalidade selecionada no corpus de análise, a constituição de documentos institucionais que margeiam diferentes constituições. Este corpus serve de mote-dinamite, de um cá quando a política nomeada entre a ideia-palavra diversidade emerge para um lá, quando diversidade decompôs os sentidos que constituíram o tema-enunciado diversidade sexual.

De uma pesquisa que procurou perseguir no campo dos sentidos de como a palavra-tema diversidade sexual passa a implodir terrenos institucionais de uma universidade pública federal em meio a efervescência dos movimentos estudantis elegebetês (LGBT), constituindo-se nos documentos administrativos que instauram esta outra história. Desses à margem que se botam no salto e chegam gritando mesmo que a universidade também é delxs, e que institucionalize-se, porque dói menos.

Um convite à remexer estes sentidos e enunciados investigativos, distorcer, contorcer e incendiar de novo, a fim de que as insurgências estimulem assoprar cinzas, tirá-las do lugar e sobretudo des-alocar um trabalho que ansia pelo despejo e as viradas da palavra outra.