Convida #6

Flávia Péret: A poesia faz alguma coisa acontecer

O convida dessa edição é com Flávia Péret, escritora e doutoranda em Educação pela UFMG, que traz um trecho de seu texto de qualificação em uma pesquisa que diz de mulheres, feminismos, poesia falada, performance e mais.

Lembro que depois que li o poema Mulher morta aos quarenta anos, da Adrienne Rich, poeta branca (Estados Unidos) mandei um áudio para a Facção Carinhosa, grupo de WhatsApp, que recentemente migrou para o Telegram e é composto por apenas três amigas. No áudio, eu contava que tinha ficado emocionada com o poema. A partir daquela leitura, pela primeira vez fiquei com vontade de escrever a história de como fiz as pazes com meu corpo, mas não gosto desse título. Preferi chamar esse texto de Devir-Monstra. Afetada pelo poema, tinha me fotografado nua pela primeira vez. Fotografei meus seios e minhas cicatrizes. Terminei o áudio perguntando: por que a gente não se olha? Lenise, mulher negra, integrante-hermana do Facção Carinhosa respondeu: é muita opressão como alicerce.

Um poema é uma máquina de produzir ficções. Um poema é uma prática discursiva. Um poema é um fenômeno da realidade. O poema é ao mesmo tempo o ovo e a galinha. Todo poema – por mais abstrato que seja – é uma tentativa de inventar outra realidade: provisória, efêmera, singular. Algumas pessoas afirmam que o poema nasce de um esforço de decifração, algo que não conseguimos acessar utilizando apenas a audição, o tato, a visão, o paladar e o olfato. A poesia é um sexto sentido.

Para Gloria Anzaldúa, a poesia é uma atividade xamânica. As palavras têm o poder de evocar outros mundos. A palavra poética faz a mediação e a tradução entre essas realidades coexistentes e simultâneas. Neste sentido, o poema é uma máquina de ver o invisível. Adrienne Rich escreveu que poemas são como sonhos: neles se coloca aquilo que não se sabe que sabe. (RICH, 2017, p.72). Um poema é uma construção. Para outras pessoas, a poesia é uma atividade exclusivamente racional, controlada, exata. A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de mudar o mundo. A atividade poética é revolucionária por natureza; exercício de libertação interior. A poesia revela este mundo, cria outro. Oração, ladainha, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Filha do Acaso, fruto do cálculo. Voz do Povo (PAZ, 2012, p. 21). Alguns poemas têm esse poder. A poesia me comove. Me co-move. A poesia me faz pensar, agir, pesquisar, escrever, compartilhar, conversar, movimenta meu corpo-pensamento, meu sentir e meu agir. A poesia faz alguma coisa acontecer. (LORDE, 2019, p.) A poesia me faz conhecer histórias que foram silenciadas. A poesia me aproxima de outras mulheres. No processo de transformação do silêncio em linguagem e ação (LORDE, 2019, p. 51) a poesia das mulheres ocupa um lugar central. Ela nos ajuda a conhecer as táticas de resistência criadas para escapar das estratégias de silenciamento.

Audre Lorde sempre defendeu a ideia de que a poesia é uma forma de romper o silêncio imposto às mulheres. No texto “Poesia não é luxo”, mas também em “A poesia faz alguma coisa acontecer” ela afirma que a poesia disponibiliza as ferramentas para produzir conhecimentos variados sobre as mulheres. No entanto, ela é consciente de que as ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa grande (LORDE, 2019, p. 135). Ao se questionar sobre o que significa usar os instrumentos do sistema racista-patriarcal para analisar as consequências produzidas pelo próprio sistema, ela conclui que os limites para mudanças reais são bastante limitados. Por isso, ela nos convoca a criar novas ferramentas. Ela nos convoca a construir novas epistemologias.

Epistemologias são modos possíveis de conhecer algo. A epistemologia não é apenas o conhecimento, mas aquilo que se pensa sobre o conhecimento e como se pensa o que se pensa. Na história da humanidade, as epistemologias foram marcadas não apenas pelo sistema sexo-gênero, mas também pelo colonialismo, pelo racismo e pelo sistema capitalista. As epistemologias inventam as categorias que investigam. Elas não apenas criam essas categorias, mas definem quem e o que dentro dessas categorias pode ser investigado. Definem o como: como determinado assunto pode ser analisado, teorizado, classificado. Dentro dessa definição, algumas disciplinas e formas de pensar se encaixam e por isso são aceitas e outras não, são excluídas, rejeitadas. É exatamente esse sistema que estamos questionando quando defendemos ideia de que a poesia pode ser uma epistemologia.

Para Audre Lorde, a poesia promove a fusão entre o pensar e o sentir. Quando olhamos a vida ao modo europeu como apenas um problema a ser resolvido, confiamos exclusivamente em nossas ideais para nos libertar, pois elas, segundo nos disseram os patriarcas brancos, são o que temos de valioso. No entanto, quando entramos em contato com nossa ancestralidade, com a consciência não europeia de vida como situação a ser experimentada e com a qual se interage, aprendemos cada vez mais apreciar nossos sentimentos e respeitar essas fontes ocultas do nosso poder. (LORDE, 2019, p. 46). Essa ideia é muito importante para esta tese. Precisamos tanto defendê-la – já que ela é alvo de sistemáticos ataques e críticas – mas também explicá-la sempre que for necessário. Porque os sentimentos das mulheres (não apenas das mulheres, mas de outros grupos politicamente minoritários) foram sistematicamente neutralizados a partir de inúmeros dispositivos deslegitimação. O poder de ter credibilidade é distribuído de maneira tão desigual quanto todos os outros poderes que há por aí. (SOLNIT, 2020, p. )

Nesse momento, acredito que as mulheres carregamos dentro de nós a possibilidade de fundirmos essas duas abordagens [pensar e sentir] tão necessárias à sobrevivência, e é na poesia que nos aproximamos ao máximo dessa fusão. Falo aqui da poesia como destilação reveladora da experiência, não do estéril jogo de palavras, que, tão frequentemente e de modo distorcido, os patriarcas brancos chamam de poesia – a fim de disfarçar um desejo desesperado de imaginação sem discernimento. Para as mulheres, então, a poesia não é luxo. É uma necessidade vital da nossa experiência. Ela cria o tipo de luz sob a qual baseamos nossas esperanças e nossos sonhos de sobrevivência e mudança, primeiro como linguagem, depois como ideia e então como ação tangível. É da poesia que nos valemos para nomear o que ainda não tem nome, e só então pode ser pensado. Os horizontes mais longíquos das nossas esperanças e dos nossos medos são pavimentados pelos nossos poemas, esculpidos nas rochas que são nossas experiências diárias. (...) Podemos nos condicionar a respeitar nossos sentimentos e transpô-los em linguagem para que sejam compartilhados. E, onde não existe ainda linguagem, é a poesia que ajuda a moldá-la. A poesia não é apenas sonho e imaginação; ela é o esqueleto que estrutura nossa vida. Ela estabelece os alicerces para um futuro de mudanças, uma ponte que atravessa o medo que sentimos daquilo que nunca existiu. (LORDE, 2019, p. 46-47)

Na introdução do livro Irmã Outsider, de Audre Lorde, Nancy k. Bereano, editora e poeta branca (Estados Unidos), fundadora da Firebrand Books, uma editora que publicava autoras lésbicas e feministas, escreve o seguinte:
Disseram-nos que a poesia expressa o que sentimos, e a teoria afirma o que sabemos; que o poeta cria a partir do calor do momento, enquanto o teórico é, inevitavelmente, frio e racional; que a poesia é arte e, por isso, experimentada de “forma subjetiva” enquanto a teoria é erudição, considerada confiável no mundo “objetivo” das ideias . Disseram-nos que a poesia tem alma e a teoria tem mente e que precisamos escolher entre elas. A estrutura do patriarcado branco ocidental exige que acreditemos na existência de um conflito inerente entre o que sentimos e o que pensamos. (BEREANO, 2019, p. 12)

Intelectuais, poetas e ativistas das mais diversas regiões, culturas, etnias e raças agenciam-se a essa percepção de que não precisamos (e não devemos mais) separar os modos de sentir dos modos de pensar e de perceber o mundo. Acredito que temos muito que o aprender com as mulheres e com a poesia feita pelas mulheres.

Para Audre Lorde, é na poesia que essa cisão entre sentir e pensar se reformula, se amplia, se conecta. É neste sentido que um poema pode ser uma epistemologia. Epistemologia como formas de sentir. Epistemologia dissidentes porque criam outros modos de sentir, de pensar, de conhecer, de narrar, de criar outros mundos e outras sensibilidades.

Por vivermos dentro de estruturas definidas pelo lucro, por relações de poder unilaterais, pela desumanização institucional, nossos sentimentos não estariam destinados a sobreviver. Mantidos por perto como apêndices inevitáveis ou agradáveis passatempos, esperava-se que os sentimentos se submetessem ao pensamento assim como era esperado das mulheres que se submetessem aos homens. Mas as mulheres sobreviveram. Como poetas. E não existem novas dores. Já as sentimos antes. E escondemos esse fato no mesmo lugar onde temos escondido nosso poder. As dores emergem dos nossos sonhos, e são os nossos sonhos que apontam o caminho da liberdade. Aqueles sonhos que se tornam realizáveis por meio dos nossos poemas que dão a força e a coragem para ver, sentir, falar e ousar. (...) Pois novas ideias não existem. Há apenas novas formas de fazê-las serem sentidas – de investigar como são sentidas quando vividas às sete da manhã de um domingo, depois do almoço, durante o amor selvagem, na guerra, no parto, velando nossos mortos – enquanto sofremos os velhos anseios, combatemos as velhas advertências e os velhos medos de ficarmos em silêncio, impotentes e sozinhas, enquanto experimentamos novas possibilidades e potências. (LORDE, 2019, p. 48 - 49)

Para além de escrever poemas, algo que Audre Lorde fez desde criança como forma de se comunicar com as pessoas, derrubar a Casa Grande implica outros movimentos, movimentos que tem a ver com estar juntas, com ensinar e aprender, com criar vínculos de solidariedade e afeto entre as mulheres, com criar comunidades. Como mulheres, fomos ensinadas a ignorar nossas diferenças, ou vê-las como causas de desunião e desconfiança, em vez de libertação, apenas o mais vulnerável e temporário armistício entre uma mulher e sua opressão. (LORDE, 2019, p. 137). No entanto, é na interdependência de diferenças mútuas (não dominantes) (LORDE, 2019, p. 137) que as mulheres encontram força, criatividade, energia e alegria para construir outros mundos.

Lorde nos ensina que escrever poesia não é uma atividade exclusivamente individual/solitária. A poesia tem a possibilidade de agenciar grupos, desejos, projetos, movimentos, ações. Criar uma editora e/ou publicar uma antologia de poesia de mulheres negras, lésbicas, feministas é sempre uma ação política. Criar um Sarau de mulheres é também uma ação política. Audre Lorde era poeta e professora. Por todos os lugares por onde transitou, ela fomentava e articulava movimentos de escritoras negras, lésbicas, não-brancas e brancas. Além disso, ela organizou dezenas de antologias de poesia e criou com um grupo de amigas a editora Table Kitchen.

No início dos anos 1970, Audre Lorde ensinou poesia numa universidade para estudantes negros no Mississipi, Sul dos Estados Unidos, uma região altamente segregada racialmente, mas também viajou para Berlim/Alemanha, onde organizou um grupo de mulheres poetas afro-alemãs. Naquele período – final dos anos 70 e início dos anos 80 – as mulheres afro-alemãs acreditavam que não existiam outras mulheres negras nascidas na Alemanha que escreviam poesia. Algumas dessas escritoras contam, no documentário Die Berliner Jahre (Dagmar Schultz, 2012) que a sensação de isolamento era intensa. A partir das suas viagens à Berlim para ensinar, ler e conversar sobre poesia, Audre Lorde ajudou a articular uma importante comunidade de escritoras negras na Alemanha.

Então, ensinar poesia é ensinar a reconhecer o sentimento, é ensinar sobrevivência. Não é fácil nem causal, mas é necessário e proveitoso. O papel do poeta enquanto professor é encorajar a intimidade e a investigação. (LORDE, 2020, p. 107). Audre Lorde tem um texto que se chama A poeta como professora – a humana como poeta – a professora como humana. Para mim, o título desse texto uma espécie de micro-poema sobre as relações entre poesia e ética. Ética como exercício humano do nosso tempo (LORDE, 2020, p. 105).