Convida #3

André: mentira tem perna curta? Fake News e seus efeitos políticos e sociais_

o convida dessa edição traz o texto de Andre Luiz C. Vicente sobre fake news e seus impactos na política brasileira (e internacional), em especial nas questões de gênero e sexualidade.
André é graduando em Pedagogia pela UFRuralRJ e gosta de Bo(u)los.

Antes de tudo vou ressaltar que Fake News não é exclusividade de terras tupiniquins, nem da Família presidencial brasileira – vide os casos atuais nos Estados Unidos envolvendo o Donald Trump -, por mais que tenhamos um protagonismo contemporâneo imensurável e uma capacidade de máquina para produzir as “mentirinhas” e divulga-las virtualmente (e, às vezes, nem só virtualmente). Ressalto, inicialmente, que essas Fake News estão propensas a circular dentro dos “filtro-bolhas” (PARISER, 2011), sem espaço para contradição, o que pode dificultar sua mitigação ao passo que aumenta seu poder de reverberação e de solidificação.

Porém, não é nosso objetivo aqui buscar as origens da Fake News e de seus usos político-midiáticos , por isso, vamos focar aqui, no Brasil e, mais especificamente nos efeitos das “atuais” Fake News no fazer político e na sociedade. Acredito que teremos um bom material de análise. Parto, assim, da noção de que Fake News diz respeito a “textos que são intencionalmente falsos e verificáveis como falsos, e que são criados para enganar leitores” (FERREIRA, 2018, p. 141, grifo meu).

Para estruturar nosso pensamento é importante frisarmos o papel matricial das mídias e das redes sociais no processo de produção e veiculação de Fake News. O papel é tão central que familiar do Presidente Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, fora identificado pela Polícia Federal como articulador de um gabinete especializado em divulgação de Fake News . O “queridinho do papai” dá orgulho à Ford e à Taylor por conta da especialização do trabalho quase que empresarial de propagação de mentiras! Contudo, como alerta Ricardo Ferreira, “é importante salientar que nem sempre os criadores de sites de notícias têm uma agenda política, embora seus impactos sejam aproveitados por estratégias de campanha” (2018, p. 142).

Assim, com o auxílio e protagonismo das mídias – nomeadamente das redes sociais na contemporaneidade -, foram propagadas as (falsas) ideias de implementação de um suposto “kit gay” nas escolas brasileiras, da distribuição de “mamadeiras de piroca”, entre outras invenções, como é o caso emblemático da veiculação supranacional da falaciosa “ideologia de gênero”. Desse modo, podemos afirmar que “as mídias, principalmente as não hegemônicas , desempenharam papel fundamental na disseminação da noção de ideologia de gênero, tanto como produtora de conteúdos e de opiniões, quanto como reprodutora e disseminadora de notícias falsas, as chamadas fake-news.” (VICENTE, no prelo). Como apresenta a pesquisa de Vanessa Leite,

“Segundo pesquisa da plataforma de checagem Aos Fatos, um grupo de jornalistas que verifica diariamente o discurso de políticos e das mídias sociais, das cinco informações falsas – as denominadas fake news – mais difundidas através de redes sociais em favor do presidente eleito, duas se remetiam às crianças. São elas: a que afirma a existência de um suposto “kit gay” que teria sido distribuído para crianças de 6 anos nas escolas, incluído aqui o episódio da “mamadeira de piroca”, e a que afirmava que se Haddad chegasse ao poder, legalizaria a pedofilia”. (LEITE, 2019, p. 133)

Nesse mesmo sentido, o site Brasil de Fato compilou, em abril de 2019, algumas dessas Fake News, e outras, que foram veiculadas na época das eleições presidenciais . Advogo para a noção de que as ações e intervenções causadas pelas Fake News rasgam o tecido democrático ao mascararem informações, distorcerem notícias, criarem personagens e, de certa forma, impedirem o acesso de parte da população às notícias fidedignas, manipulando o pensamento social .

“Embora não seja possível mensurar sua influência na decisão dos eleitores, o debate na esfera pública digital tem ressonância nos processos decisórios das democracias” (FERREIRA, 2018, p. 158). Desse modo, pensemos nos efeitos produzidos, tanto politicamente, quanto socialmente. A quantas pessoas essa vinculação falaciosa e intencional chega e produz um mecanismo de escolha (ou não) político-partidária? Como concluiu a pesquisa de Ferreira (2018), a propagação e veiculação de Fake News é tão potente que fora crucial e mobilizadora do processo eleitoral de 2018. Assim,

[...] “o engajamento das fake news foi até três vezes maior que o engajamento em conteúdos de veículos de comunicação tradicionais e, nos casos dos dois melhores colocados nas pesquisas de intenção de voto até o momento da coleta de dados, situados em lados opostos do espectro ideológico, os conteúdos falsos respondem por mais da metade dos engajamentos”. (p. 139)

Vale, portanto, pensarmos que as Fake News atendem a dois objetivos: elas não produzem apenas o outro como negativo e perigoso, mas produz quem a divulga/verbaliza como positivo e confiável, uma vez que este é aquele que denuncia o perigo. Esta noção pode ser inferida, também, nas análises de Maranhão Filho, Coelho e Dias (2018, p. 65) que apontam que “a produção de fake news impulsionou a campanha de Jair Messias Bolsonaro”.
De acordo com os autores
“A campanha presidencial de Jair Bolsonaro foi alavancada pelo uso potente de fake news inseridas em postagens e vídeos em redes sociais digitais como Youtube, Facebook, WhatsApp e Twitter. Dentre as notícias falsas, destacaram-se as relativas ao “kit gay” e à “ideologia de gênero”.” (p. 74)


Nota-se, portanto, a mobilização de pautas sexuais e morais para a produção de inverdades, visando atacar e deslegitimar sujeitos políticos e pautas que, em alguma instancia, se alinham aos movimentos de/por diversidade. Logo, podemos entendê-las como mecanismos/dispositivos políticos e de poder, bem na perspectiva foucaultiana mesmo, para quem “vivemos em uma sociedade que produz e faz circular discursos que funcionam como verdade, que passam por tal e que detêm, por este motivo, poderes específicos” (FOUCAULT, 1979, p. 231)

Nesse caldo de mentiras, até Pabllo Vittar virou ingrediente. Associaram-na ao ex-presidente Lula e ao Partido dos Trabalhadores (PT) gerando, para alguns, memes, para outros (falsas) verdades. Não é difícil encontrarmos inúmeras notícias e imagens, as mais absurdas possíveis, mas que potencialmente geram impacto político e, até, partidário (CASTELLS, 2007; MARANHÃO FILHO, COELHO & DIAS, 2018).

A vinculação não é ingênua. A imagem associada de uma drag queen, que borra as normas de gênero à uma figura política é feita no sentido de marginalizar, desvalorizar, tornar chacota e absurdo; até porque: “quem é o cidadão de bem, protetor da família, que vota em partido de esquerda que apoia isso”. Nota-se que faz-se/produzem o corpo abjeto. Não é possível categorizar esse corpo e esta performance; é isso, é coisa. Logo, quem se alinha/aproxima a esses sujeitos/corpos não é digno de ser levado a sério, quiçá assumir cargos públicos.

Como venho buscando argumentar, ao acionar esses dispositivos (o kit gay, a ideologia de gênero, a mamadeira de piroca, o sexo nas escolas, etc) fora possível “demonizar”, com apoio de parcela da população atingida por essas Fake News, os movimentos em defesa dos direitos sexuais e da diversidade sexual e de gênero e caminhar a passos largos para subalternização e marginalização desses sujeitos e de suas expressões afetivas, sexuais e culturais.

Não nos esqueceremos que as Fake News têm efeito de produção de um pânico moral (Cohen, s/d apud Miskolci, 2007, p. 111) e que, pela sua capacidade de aglutinar discursos – mesmo que não tenham nenhuma coerência interna – ela é reiterada intencional e compulsivamente. Basta observar que, quando algo vai mal – ou não sai como planejado - nos planos de quem engendrou determinada Fake News (observemos o caso do Governo Federal brasileiro), rapidamente surge um porta-voz para retomar a Fake News e dissimular/mascarar a realidade voltando a atenção da população para aquela falácia.

Como aponta Silverman (2018) “a história do termo fake news simboliza como o nosso ambiente de informação atual opera e é manipulado, como a própria realidade é moldada e distorcida [...]Repita uma mentira e você ‘fabricará’ a realidade para uma parte da população [...]”. Nesse sentido, e como um agente midiático importante para a divulgação das Fake News, podemos lançar luz sobre os bots, responsáveis por grande volume de notícias falsas. Assim, concordando com Shao et al. (2017, p. 11) “poucas contas são responsáveis por uma grande parcela do tráfego que traz conteúdo enganoso”.

“Essas contas são provavelmente bots, e descobrimos várias estratégias de manipulação que usam. Primeiro, os bots são particularmente ativos em amplificar notícias falsas no estágio inicial de propagação, antes que o conteúdo seja viral. Em segundo, os bots miram usuários influentes através de respostas e menções” (Shao et al., 2017, p. 11).

Há pouco tempo, nos debates de candidatos à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, o prefeito e candidato Marcelo Crivella verbaliza Fake News à candidata Renata Souza , retomando a noção de ideologia de gênero e de sexo nas escolas. Na ocasião o candidato afirmou, de forma falaciosa, que “se o PSOL for eleito vai ter na escola orientação sexual, kit gay e vão induzir à liberação de drogas”.

Esse exemplo ilustra o argumento da reiteração e reuso das Fake News, criadora consciente de um pânico moral , com fins altamente político-partidários e de ataque direto às pautas de gênero e sexualidades. Podemos entender esse pânico moral como um “mecanismo de resistência e controle da transformação societária que emergem a partir do medo social com relação às mudanças, especialmente as percebidas como repentinas e, talvez por isso mesmo, ameaçadoras” (MISKOLCI, 2007, p. 103)

Como sugere Ferreira (2018, p. 140), tratando da noção de pós-verdade e apoiado nas considerações de Caldwalladr, “lideranças políticas e seus apoiadores são indiferentes à verdade dos fatos enquanto estratégias de campanhas são desenvolvidas para atender apenas aos sentimentos, desejos e medos, com a ajuda de análise de dados na internet por empresas especializadas”.

Na atualidade ainda poderemos, ainda, listar os efeitos das Fake News no combate ao coronavírus (Sars-CoV-2), bem como nas informações sobre a pandemia. Fake News e a Educação, principalmente a educação pública e para a diversidade, com a noção de uma pedagogização da sexualidade das crianças (VICENTE, 2019). Fake News sobre os Direitos Humanos e Sexuais. Fake News e as leis de incentivo à cultura. Fake News sobre movimentos sociais (quem nunca ouviu que movimento feminista é sobre odiar homens e abortar, que o MST e o MTST são movimentos de vagabundos que invadem casas, e outros?).

Em Wardle (2017) é possível encontrar 7 (sete) tipos de notícias falsas (misinformation e disinformation): Sátira ou paródia; Conteúdo enganoso; Conteúdo impostor; Conteúdo fabricado; Conexão falsa; Contexto falso; Conteúdo manipulado. No Brasil, não diferentemente de outros lugares do mundo, é possível encontrar todos os tipos. Poderíamos fazer listas intermináveis de associação Fake News – Tipo.

Visto a pluralidade de espaços que ela pode invadir e dissimular, quantidade de material e diversidade de materiais e de meios de invenção/propagação e os efeitos sociais e políticos diretos, podemos passar a refletir sobre as fake News como uma categoria de análise, não apenas como um fenômeno. Uma categoria, inclusive, altamente perigosa para a democracia e para sujeitos/corpos não hegemônicos.


REFERENCIAS
BRASIL, Constituição Federativa da República do Brasil. Distrito Federal: Imprensa Nacional, 1988.
CASTELLS, Manuel. Communication, power and counter-power in the network society. International journal of communication, v. 1, n. 1, p. 29, 2007.
DARNTON, Robert. A verdadeira história das notícias falsas. 01 mai. 2017. El País. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/28/cultura/1493389536_863123.html. Acesso em: 06 nov. 2020
FERREIRA, Ricardo Ribeiro. Rede de mentiras: a propagação de fake news na pré-campanha presidencial brasileira. Observatório (OBS*), v. 12, n. 5, 2018
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal, 1979.
LEITE, Vanessa. “Em defesa das crianças e da família”: Refletindo sobre discursos acionados por atores religiosos “conservadores” em controvérsias públicas envolvendo gênero e sexualidade. Sexualidad, Salud y Sociedad. nº 32. pp. 119-142. ago. 2019
MARANHÃO FILHO, Eduardo Meinberg de Albuquerque; COELHO, Fernanda Marina Feitosa; DIAS, Tainah Biela. “Fake News acima de tudo, fake News acima de todos: Bolsonaro e o “kit gay”, “ideologia de gênero” e fim da “família tradicional”. Revista Eletrônica Correlatio v. 17, n. 2 - Dezembro de 2018
MCGILLEN, Petra. How the techniques of 19th-century fake news tell us why we fall for it today. 11 abr. 2017. Nieman Lab. Disponível: https://www.niemanlab.org/2017/04/how-the-techniques-of-19th-century-fake-news-tell-us-why-we-fall-for-it-today/ Acesso em: 06 nov. 2020
MISKOLCI, Richard. Pânicos Morais e Controle Social – Reflexões sobre o Casamento Gay. Cadernos Pagu (28), janeiro-junho de 2007, p. 101-128
PARISER, Eli. The Filter Bubble: What the Internet is Hiding from You. Londres: Penguin Books, 2011
SHAO, Chengcheng et al. The spread of fake news by social bots. arXiv preprint arXiv:1707.07592, v. 96, p. 104, 2017. Disponível em: https://www.andyblackassociates.co.uk/wp-content/uploads/2015/06/fakenewsbots.pdf. Acesso em: 06 nov. 2020
SILVERMAN, Craig. Eu ajudei a popularizar o termo “fake news”, mas hoje sinto calafrios ao ouvi-lo. 12 jan. 2018. Buzzfeed. Disponível em: <https://www.buzzfeed.com/craigsilverman/historia-fake-news> Acesso em: 06 nov. 2020
VICENTE, Andre Luiz Coutinho. Ideologia de Gênero versus Educação para a Diversidade: Embates entre o Conservadorismo e a Resistência da População LGBTPQIA. Revista Diversidade e Educação, no prelo
VICENTE, André Luiz Coutinho: “Pela Pureza das Crianças: Um estudo sobre a invenção da Ideologia de Gênero e seus impactos nas políticas educacionais (2004-2019). Monografia (Licenciatura em Pedagogia – Instituto de Educação). Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2019
WARDLE, Claire. Fake news. It’s complicated. 16 nov. 2017. First Draft. Disponível em: <https://firstdraftnews.com/fake-newscomplicated/ > Acesso em: 06 nov. 2020

Design%20sem%20nome_edited.jpg