Colcha de retalhos #2

“a gente não queria ficar restrito a uma sala”_

na colcha de retalhos dessa edição você descobre a relação do Coletivo Duas Cabeças com o espaço público e a Cidade através das narrativas costuradas de César Dornelas, Guilherme Freire, Marina Cápua, Bruna Leonardo, Michell Marques e Juber Pacífico.

Depois daquilo a gente marcou uma reunião na Ágora. Aí já começamos a fazer reunião na Ágora, apesar de que nesse tempo a gente também fez reunião no ICH.
(Juber)

Isso, inclusive, era uma preocupação nossa. Em vários momentos alguns professores viam as nossas demandas e falavam: “olha, vocês quiserem a gente tem um espaço aqui, uma sala que a gente pode doar pra vocês utilizarem”. Mas a gente não queria, sabe. A gente não queria ficar restrito a uma sala. Que isso eu acho que ia muito institucionalizar o Coletivo como uma coisa da UFJF. E a gente foi meio que expandindo. A gente foi conhecendo pessoas de outros lugares. E isso ia acabar limitando. Então a gente falou: “não, a gente vai se reunir na Ágora, porque a Ágora é um espaço aberto, quem tiver passando e vê o que a gente tá falando, escutar e quiser participar, é um lugar que todo mundo pode entrar. Não é um lugar que vai limitar a entrada de outras pessoas”. Isso não era só uma percepção, mas era uma preocupação nossa.
(Guilherme)

Outra marca legal foi de que nossas reuniões terem sido sempre ao ar livre. Eu acho que isso foi uma contribuição bacana pros outros. Depois eu vi no ICH outros coletivos surgindo com essa ideia. Na época eu não lembro de outros coletivos que se reuniam ao ar livre assim, que as pessoas passavam e perguntavam: “que que tá acontecendo aí? Que que é isso? É reunião do que? Posso participar?”. Antes, não. Era muito fechado. Era: “ah vamos marcar em tal lugar específico”, que geralmente era fechado. E eu acho que isso foi uma marca que veio nos outros coletivos hoje. Ser aberto, ao ar livre, para as pessoas poderem participar, se sentirem mais livre pra agregar.
(Juber)

Qualquer pessoa pode chegar. Isso que eu esqueci de falar: as pessoas começaram a chegar. As reuniões do Coletivo a gente via as pessoas. As pessoas viam a gente lá e chegavam. As pessoas perguntavam: “ah a gente pode sentar?”. Ou a gente falava: “Ah, senta aqui, vem cá, pode participar”.
(Bruna)

Umas demandas da cidade sempre batiam no Coletivo. Porque era um lugar que as pessoas iam buscar ajuda. Teve alguma coisa de Faculdade, um caso homofobia. Não da UFJF, acho que foi no Vianna. Eu lembro do Coletivo se posicionando.
(Michell)

Isso é até um ponto positivo também. Não tô falando da visão moralista. Mas é porque a gente vê o discurso das pessoas né. Muito que falam contra a gente é isso: “ah, que são imorais, não tem escrúpulos”. E às vezes essas pessoas não tem oportunidade né, de ver a gente naturalmente. A gente vivendo mesmo, como todo mundo.
A gente ta ai, vivendo naturalmente, como todo mundo.
(Bruna)

E a gente tinha umas ações específicas. O Matheus, por exemplo, foi convidado pra participar de uma Parada, se eu não me engano, lá em Muriaé. E aí ele participou lá, falou sobre o Coletivo. Sempre que a gente tinha a oportunidade de participar de alguma ação em outra cidade a gente ia.
(Guilherme)

A gente tinha um blog que era muito bem acessado, a gente escrevia os artigos. No Facebook a
gente era muito ativo.
(Juber)

Essas coisas estavam ocupando não só a academia, mas também as articulações dentro dos núcleos de estudantes.
(Marina)

Eu acho que o período que vai da criação do Coletivo em 2014 até mais ou menos 2017, que é o fim mesmo, eu acho que é um período de protagonismo do Coletivo na cidade de Juiz de Fora. Eu não lembro de outro movimento que teve o espaço que a gente teve. A gente era convidado pra estar em audiência pública. A gente estava na Câmara. A gente era convidado pra discursar, pra estar nos eventos da prefeitura. A gente tava na TV. A gente tava na rádio. A gente tava no jornal.
A Bruna, teve um determinando momento que todo dia a Bruna tava na TV, no jornal e na rádio. O pessoal começou a brincar: “TriBruna de Minas”.
(Juber)

Então, o Coletivo acabou que eu acho que ele ganhou muita visibilidade. A mídia em si passou a respeitar muito. As matérias eram sempre muito respeitosas. Eles eram muito respeitosos com a gente. Sempre entrando em contato com a gente. Sempre quando surgia alguma matéria sobre lgbtifobia, eles procuravam o coletivo, sabe! Sempre muito respeitosos, sempre com muito cuidado.
(Bruna)

Outras pessoas lgbt que são de Juiz de Fora e não são universitárias conhecem o Coletivo Duas Cabeças, mesmo ele não existindo mais na sua composição que é. Mesmo não estando ligado na Universidade o tempo todo, não estando frequentando a Universidade, sabem que na Universidade existe um respeito e um apoio a questão da diversidade.
Eu vejo muito disso. A cidade tem reflexos disso.
(César)

Quando eu fui pra Juiz de Fora, eu vi meninos de mãos dadas andando na rua. E, “nossa, que legal”. Sabe, assim? E os meus amigos, a maioria não tinha saído do armário ainda lá em Alegre. Depois saíram tudo de uma vez, uma beleza. E eu nesse intercâmbio também. Não só com o Coletivo, mas com o Mudd*se também.
(Marina)

Juiz de Fora é uma cidade de turismo gay. Gay. Não lgbt. É gay. Porque quem gosta de ir nos eventos é um público bem específico que a gente conhece e que a gente tem críticas. E é uma galera que encabeça as suas ações, que leva suas ações pensando primeiro na letra G. E não é essa a realidade que precisa de atenção.
(César)

Essa ideia de se expor enquanto lgbt dentro de um espaço público, dentro da Universidade, e reiterar aquelas identidades, é assim, eu acho que isso se deve muito ao Duas Cabeças. Sabe, de “vamos levantar a bandeira aqui mesmo, vamos ficar reunidas aqui até tantas horas”. Isso é muito bacana também de ocupar os espaços.
(Marina)

E aí é uma análise que eu faço. A importância dele naquele momento foi de revitalizar o movimento de diversidade em Juiz de Fora. Depois disso, surgiu um monte. Um monte de gente participando. Hoje tem aqui um monte de Coletivos que discutem várias questões, não só as questões lgbt, mas questão racial. Mas naquele momento eu não via. Pode até ser que tinha um monte também. Mas eu não via que o espaço com o espaço que a gente tinha.
(Juber)

É uma ruptura. Mas é uma ruptura também que o incômodo causa reflexão. Causa o “pô, eles estão aqui igual a gente!”. E aí cai naquele negócio que eu comentei, naquela ideia do normativo. De algumas identidade são mais aceitas que outras nesses ambientes também.
(Marina)

Que é uma relação com o espaço. Uma relação de pertencimento mesmo. Os alunos da Universidade estavam ocupando um espaço ali de pertencimento. E teve pessoas de fora da Universidade, que começaram a se sentir também.
(Juber)

Geralmente a gente que é lgbt, a gente que é do vale, lgbtqia+, acaba socializando em boate. Boate. Aí tem o tal do banheirão. Lugares e tal. E ali era um local de socialização também. Um local mais tranquilo, pra conversar, escutar as pessoas e tal. E até para as pessoas de fora verem que a gente é igual todo mundo também. A gente quer sentar também, bater um papo, escutar uma música. A gente às vezes quer ficar agarradinho com o crush, com o namorado ou a namorada. Só de boas.
(Bruna)