Colcha de retalhos #3

"quem não tem treta com a Câmara Municipal?"_

na colcha de retalhos dessa edição você descobre a relação do Coletivo Duas Cabeças com as questões partidárias e a Câmara Municipal através das narrativas costuradas de Bruna, César, Guilherme, Daniela, Juber, Marina , Matheus, Michell.

É, quem não tem treta com a Câmara Municipal? Qualquer pessoa com bom senso tem treta com a Câmara Municipal. A coisa toda da “ideologia de gênero”, o Plano da Educação. O Coletivo tava lá. A Bruna tava lá, lembro bem. A Bruna foi super necessária lá, a única pessoa sã. Nesses rolês o Coletivo sempre estava presente.
(Michell)

Quando a gente teve o enfrentamento do Coletivo na Câmara Municipal à implementação do Plano Municipal feito pras mulheres, que teve até que ser retirado porque eles tavam ameaçando. Era a primeira vez que o Plano Municipal colocava políticas públicas para mulheres lésbicas, não era nem pra mulheres trans. Que o erro maior foi esse, o plano citava mulheres lésbicas e todo o problema foi esse. A gente foi muito perseguido na Câmara, teve muita batalha lá dentro. Dos religiosos com a gente. Dos vereadores né. E a Tribuna sempre cobrindo, a Integração também.
(Bruna Leonardo)

No campo político a gente tinha uma clara disputa, de espaço mesmo. Porque na época que tava discutindo Plano Municipal de Educação a gente ainda era muito discutido, muito falado na cidade, os religiosos disputando o espaço porque eles queriam Escola Sem Partido. No meio disso ficava o prefeito que não fedia e também não cheirava, não tomava posição nem de um, nem de outro. Mas sempre ligado a eles, lógico, aos religiosos. E aí ganhou muita força na formatação do Plano Municipal essa questão toda de não debater questões de gênero nas escolas, de impedir qualquer discussão disso.
(Juber)

Veio junto Campanha de DCE. Veijo junto eleições presidenciais e campanha das eleições presidenciais que teve a reeleição da Dilma. Muita coisa em paralelo que a gente acompanhou e que acho que foi importante pro Coletivo ter uma certa visibilidade. Porque o assunto tava em voga.
(César Dornelas)

Não tinha partido também. Isso é interessante. Os movimentos dessa época, apartidários. E tinham mais essa proposta do fazer ouvir, fazer escutar. E nessas escutas aí, elencar demandas. Como a demanda do banheiro, a demanda do nome social.
(Marina)

Na eleição da Dilma, se eu não me engano. A gente resolveu fazer um PDF falando sobre os diferentes candidatos e os posicionamentos deles acerca das propostas relacionadas à comunidade LGBT. E aí a gente pegou as propostas contidas dentro dos Programas de Governo deles. Mas algumas pessoas que eram dos partidos de esquerda falaram “não, mas a gente sabe que os partidos de direita, por mais que coloquem essas propostas dentro dos programas deles, eles não vão cumprir. Então a gente meio que tem dá um aviso nessa nossa cartilha”. Mas algumas outras pessoas falaram que não, que a gente não podia dar a nossa opinião porque a gente tinha que ser apartidário. E aí isso gerou muita discussão. Algumas pessoas ficaram muito revoltadas com o jeito que foi lidado com isso e acabaram saindo.
(Guilherme)

Eu trabalhei no projeto da cartilha. E eu lembro que ali começou um tipo de divergência com alguns outros membros que eram mais ligados a movimento estudantil mais institucionalizado, ligados a partidos. A ideia era fazer uma cartilha LGBT e nessa cartilha tinha alguma coisa a ver com candidatos com propostas lgbt. Era uma ideia de fazer algo nesse sentido.
(Daniela)

O Coletivo acabou sendo afetado pelas questões político-partidárias né. O grupo era formado por pessoas de esquerda, logicamente. Não tinha ninguém de direita, pelo menos que eu saiba. Por muitos heteros, inclusive. E o Coletivo começou a ter problemas e atritos relacionados a questão político-partidária. A gente tinha no começo algumas pessoas do PST, do PSOL, do PCB, do PCO, que tem um pensamento diferente entre si. E nós que não tínhamos um partido político. Na época eu não era filiado a nenhum partido. Acabou que eles queriam que as pautas do Coletivo acabassem surgindo como pauta partidária. E a gente acabou tendo atritos por causa disso. Porque sendo um Coletivo múltiplo a gente tem que observar que uma ideia só não deve ser defendida, a gente ia ter que acabar entrando num consenso. Ou é um Coletivo múltiplo que abarca todas as multiplicidades, ou a gente fala que não é e que é um braço de partido.
(Juber)

Eu lembro que tinha algumas coisas também de bem políticas assim. Porque tinham algumas pessoas faziam parte de alguns partidos, outras pessoas que não queriam que o Coletivo tomasse partido em partido. E aí com isso ia tendo alguns atritos.
(Guilherme)

O Coletivo passou a funcionar de uma forma diferente. Porque tinha gente querendo se apropriar das pautas do Coletivo. Queria que o Coletivo fosse das pautas do partido. E a gente meio que não aceitou isso. A gente meio que questionou. E a gente começou a defender muito que o Coletivo fosse aberto a qualquer corrente ideológica. Inclusive, as da direita, como o PSDB. E eu lembro que teve uma briga muito feia.
(Matheus das Dores)

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