Colcha de retalhos #7

"a impressão que a UFJF é inclusiva"_

na colcha de retalhos dessa edição você descobre a relação do Coletivo Duas Cabeças com a Universidade Federal de Juiz de Fora: casa e espaço de disputa do coletivo em muitos momentos. As narrativas são de Bruna Leonardo, Cesar Dornelas, Juber Pacífico, Michell Marques e Roney Polato.

A UFJF ganhou a visibilidade como acolhedora das questões de gênero muito pelo trabalho que começa, não pela administração superior, mas pelos grupos de pesquisa e pelos coletivos. Especificamente a ação do Duas Cabeças e o GESED. Começaram a movimentar isso de forma muito insistente e presente. E algumas questões foram acolhidas gerando visibilidade. À medida que a gente foi fazendo eventos que eram públicos, a gente começou a participar de espaços locais de divulgação que começou a dar a impressão que a UFJF é inclusiva.
(Roney)

A gente teve o aparato dos professores que compraram nossa ideia. Professoras da psicologia, da educação, do direito. Porque como eram 20 cabeças, não eram 2 não, eram 20 no Coletivo, a gente meio que tentava organizar as coisas nos nossos cursos né. Então eu lá na Administração eu conseguia um evento institucionalmente. O Thales que era do Direito chamava um professor que já tinha debate sobre aquilo e que atuava em questões relacionadas. Aí a gente chama a Juliana Perucchi pra falar sobre algum aspecto psicológico. Por mais que ela, em um primeiro momento fez uma coisa muito interessante falando assim: “o que vocês precisarem de mim em um aparato institucional, contem comigo; mas não esperem de mim pra falar nada”. E não foi num sentido de negar, mas de a gente ser protagonista dessa história. Ela falou assim: “eu sou uma professora, vocês que são estudantes. Vocês são maioria, podem mudar a estrutura a Universidade como um todo. Eu consigo ajudar na legitimação, mas na luta eu quero que vocês façam”. E isso foi fundamental, crucial. Esse tato dela de parecer até um pouco rude no primeiro instante, fez a gente perceber que foi o ponto de partida.
(César)

Eu acredito que a experiência na Universidade, considerando as pessoas que vem pra Universidade de suas famílias, de bairros distantes, de outras cidades. Que às vezes, inclusive, não tinham uma experiência de lgbt pública, pra dizer assim, não tinha publicizado sua identidade e expressão de gênero e sexualidade. Essas pessoas encontram na Universidade um espaço que às vezes é considerado um pouco mais livre. Claro, com todas as ressalvas possíveis, porque a Universidade é muito múltipla.
(Roney)

Na vida da Universidade teve marcas significativas. Se a Universidade hoje permite o uso do nome social em todas as instâncias, se a Universidade tem um Centro de Referência pra população lgbtqia+ é reflexo de movimentos de ações que ocorreram ao longo dos anos e deixou essas marcas. Sejam bolsistas que foram pra Diretoria de Ações Afirmativas, sejam reflexos das nossas próprias ações, eu vejo essas consequências, desdobramentos das nossas ações.
(César)

O Coletivo, de certa forma, apoiava essas pessoas e construía algumas pautas em comum que era possível compartilhar algumas experiências e ter um fortalecimento mútuo pra as questões enfrentadas dentro da Universidade — em termos de violência, preconceitos, discriminações, a luta por direitos (como Nome Social da UFJF).
(Roney)

Eu vivia indo na DIAF encher o saco da Carolina. Porque o nome social naquela época tinha, mas não tinha. Não funcionava, não tinha sistema. Aí isso era uma briga constante. Mas agora, pelo menos, base já tem.
(Michell)

Mas há uma série de conflitos ainda que permanecem, uma série de tensionamentos. Muitas vezes as questões não são acolhidas, a gente encontra uma série de dificuldades.
(Roney)

A gente teve a Campanha dos Banheiros. A gente conseguiu colocar a plaquinha nos banheiros da reitoria. A Universidade fez as plaquinhas, foram várias, só que os Institutos não deixaram colocar. Porque não tinha uma norma. Era uma questão política boca a boca, de conversa. E a gente conseguiu com a Carolina Bezerra na época, que estava na DIAF. A Carol colocou na reitoria.
(Juber)

Foi bem polêmico, gerou uma repercussão nas redes sociais. As pessoas falando que não iam admitir travesti usando o mesmo banheiro que mulheres cis, que ia ter estrupo. A Câmara Municipal lançou uma nota de repúdio contra a Universidade. A Câmara tava querendo processar a própria Universidade.
Acabamos nos tornando referência na Universidade e na cidade. Foi muito bacana. As pessoas procuravam a gente.
(Bruna)

Nós temos um evento que vem sendo realizado há quatro anos, encabeçado pelo professor Marcelo do Carmo, do Turismo, que é a Semana Rainbow da UFJF. Com uma série de atrações artísticas e debates acadêmicos.
(Roney)

O projeto de Semana Rainbow na Universidade eu também vejo que foi uma coisa pós-coletivo que: quem disse que os professores não tavam de olho na nossa movimentação? Percebendo que esse debate era interessante e necessário. Então vamos fazer duas coisas: vamos botar Parada com um aparato Legal, garantir cidadania, e vamos entreter também. São dois projetos paralelos da Universidade que eu vejo que pode ser, modéstia à parte, um reflexo.
(César)

Com o fim do Coletivo, o debate na Universidade como um todo é dificultado. Porque nós professoras e professores temos um determinado modo de expor e falar sobre isso. Se a gente tem um Coletivo que fala de estudante pra estudante, eu acho que tem um outra sensibilidade que é construída aí. Uma outra atenção.
(Roney)