Aprendi no coletivo #4

“as coisas podem ser realizadas, entende?”_

O aprendi no coletivo dessa edição traz a narrativa de Marina Cápua, integrante do Coletivo Duas Cabeças, que narra o legado que aquele espaço deixou em sua vida.

No começo foi uma coisa mais acadêmica mesmo, mas depois foi uma coisa que me contemplou de outra forma, pessoalmente falando. Não só questão profissional acadêmica. E aí eu procurei saber, fui em algumas reuniões. E eu lembro de uma reunião específica que nós fizemos uma roda bem grande na grama da reitoria e foi a primeira vez que fez uma apresentação de todas que tavam ali. E se perguntava por que que nós estávamos ali, o que tinha motivado a gente frequentar? E aí eu lembro que eu fiz uma narrativa que eu não me considerava nem bissexual na época, mas eu lembro ter narrado que eu me sentia estranha na escola porque as pessoas não compreendiam muito o meu jeito de ser. Às vezes usando roupas masculinas, às vezes preferindo uma bicicleta que um vestido de festa de 15 anos, que é a questão do estereótipo de gênero de cidade pequena. E foi muito importante pra mim ter aquele espaço. A sensação que você tá se pondo, mas ao mesmo tempo tá trocando ideia. Está sendo acolhida, acho que a palavra é essa. Está sendo acolhida na forma que você pensa. Você tem pessoas parecidas com você, que passaram por coisas que você passou e não é vergonhoso isso, você pode se expressar.

O coletivo deixa um legado pra mim que é importante a gente insistir, persistir no que a demanda social coloca pra gente. As coisas podem ser realizadas, entende? Eu posso ter o meu nome mudado, enquanto pessoa trans, por exemplo. Ou eu posso reivindicar um nome social, ou eu posso reivindicar um banheiro. Pra essas demandas que são lidas como estranhas. Os embates na Câmara Municipal. Eu posso colocar minha cara aqui porque tenho força, tenho amparo dessas pessoas que construíram um movimento lgbt em Juiz de Fora.

E por exemplo, uma ideia de separação entre identidade sexual e identidade de gênero eu tirei do Coletivo. Porque foi no Coletivo que aprendi que identidade de gênero é uma coisa; a identidade sexual é orientada pelo desejo, e de gênero é como você se identifica em relação ao gênero (feminino, masculino, ou uma coisa entre isso, ou nada disso). Mas assim, foi pedagógico nesse sentido também. Inclusive nas minhas leituras atuais eu consigo conceber melhor essa separação.

Então, tipo assim, o legado do Coletivo, o legado de ter me tornado amiga da Bruna no processo doloroso de pesquisa, de entender o que era aquilo que eu tava fazendo, se era um objeto, se era uma pessoa. Deixa esse legado de ser acessível, de ser uma pessoa que era insensível a essa coisas. E, por exemplo, eu não reivindico muito minha identidade enquanto bissexual porque às vezes eu acho que tô num lugar muito confortável com um cara há cinco anos. Então, tipo assim, no que eu posso somar, eu somo.

Mas deixa a gente mais confortável pra ser quem a gente é. Conviver é um legado pra mim do Coletivo. Com certeza passa pela minha cabeça várias reflexões que o Coletivo colocou pra mim. Que é possível, que você não tá sozinha, que é possível você ir adiante.

texto: marina cápua, professora e ex-integrante.
ilustrações: neilton dos reis, editor.

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