Aprendi no coletivo #1

“a lutar, a levantar bandeira”_

O aprendi no coletivo dessa edição traz a narrativa de Guilherme Freire, um dos fundadores do Coletivo Duas Cabeças que conta algumas coisas que aprendeu naquele espaço.

O que mais eu aprendi?

Ah, eu acho que tipo assim, que isso de que todas as nossas ações são de certa forma políticas. Acho que isso foi uma coisa que o Coletivo me ensinou muito.

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E também a lutar, a levantar bandeira. Porque a gente que é da comunidade lgbtqia+, a gente desde sempre, eles tentam colocar na nossa cabeça que você não precisa levantar bandeira, você não precisa se mostrar, você não precisa falar para as pessoas, que isso é uma coisa do seu íntimo. E isso é uma tentativa, lógico, de silenciar, de evitar que a gente se organize. E eu acho que ali no Coletivo, tendo a oportunidade da gente se reunir, da gente conviver, por mais que nós fôssemos diferentes, a gente conseguir juntar essas diferenças e ter um objetivo em comum, eu acho que isso me marcou muito. E eu sentia muita falta de ter isso, de ter esse senso de comunidade que eu tinha no Coletivo. Era uma coisa que eu sentia falta, mas foi uma coisa que eu consegui voltar a ter esse senso de comunidade agora, participando do movimento de hiv/aids. Que é muito doido. Me lembra muito o Coletivo.

Porque no movimento hiv/aids a gente também tem gente de todos os tipos. Porque o hiv não escolhe, acontece. É muito doido porque eu fico fazendo esses paralelos. Eu participei do Coletivo e lá tinha gente de todos os tipos, e agora convivendo com o pessoal do movimento hiv/aids, também. Então eu acho que me marcou muito.

E muitas coisas que hoje em dia eu faço no Movimento, são coisas que antes eu aprendi. Eu acho que o Coletivo Duas Cabeças foi a minha escola nesse sentido. Muita coisa que eu faço hoje em dia no Movimento são coisas que eu aprendi no Coletivo. No Coletivo eu fazia parte da comunicação. Eu aprendi como se comunicar dentro de um movimento social, o que e legal. O que funciona, o que não funciona. E são coisas que hoje eu faço no movimento atualmente.

Atualmente eu faço parte da rede de jovens de Minas. De pessoas que vivem com o vírus e pessoas que convivem, então namorados, amigos. E eu também entrei na rede nacional de jovens vivendo. E atualmente eu estou ajudando na parte de comunicação da rede de jovens de Minas.

E tipo assim, tudo que eu faço hoje em dia lá dentro, são coisas que eu fazia no Coletivo. Coisas que eu sei que funcionam, coisas que eu sei que não funcionam. Então pra mim foi uma escola. Muitas coisas que eu aprendi lá, são coisas que eu replico hoje em dia.

Eu entrei na rede no começo de 2018. O meu diagnóstico é de 2016, último período da graduação, pra ser mais específico. Aí foi um momento que eu sabia que eu vivia, mas sabe quando é uma coisa que meio que você não quer aceitar? Sabe, tipo assim como se fosse uma negação? Então eu fazia o tratamento direitinho, nunca parei, sabia que eu estava indetectável. Só que era como se eu não me enxergasse como uma pessoa que vive com hiv.

E aí uma vez eu respondi um questionário. É uma coisa muito doida, parece coisa do destino. Porque apareceu pra mim um questionário sobre pessoas que vivem com hiv. Sabe quando aparece aquelas coisas patrocinadas no Facebook? Aí eu resolvi responder. Só que no final você deixava seu contato e a pessoa que fez o formulário ia entrar em contato com você. E aí um cara da rede pegou meu contato e perguntou: “olha a gente tem um grupo de pessoas que vivem e convivem, você quer participar?”. Aí eu falei: “pode me colocar”. Mas assim, sabe, pra mim tanto faz.

Eu entrei no grupo e aí foi muito legal. Porque eu via outras pessoas que passavam pelo que eu tava passando. Muitas coisas que eu achava que era tipo coisas da minha cabeça, eu vi que não. Outras pessoas também já passaram por isso. Então acho que foi aí que meio que deu o start de “não cara, não dá pra você negar mais não, mudou tua vida, você tem que aceitar”. E aí foi no final de 2018 eu resolvi: “não eu não quero ficar guardando isso só pra mim”. E ai eu resolvi falar.

Mais uma vez, muito doido, eu fico fazendo essas associações. Quando a gente é lgbt, eles falam pra gente: “ah você não precisa levantar bandeira”. E o mais doido é que as pessoas falam isso também pra quem vive com hiv: “essa é uma coisa particular tua”. Eu acho que o hiv é ainda pior, porque as pessoas falam como se, tipo assim, você não precisa e não pode falar. Então tipo: “isso é uma coisa sua, você não precisa ficar falando pros outros, isso é da sua intimidade”. Sabe? A mesma coisa que as pessoas falam em relação à sexualidade, elas também falam em relação ao hiv. Só que eu não me toquei dessas coisas. Mas aí quando eu comecei a falar sobre, eu acho que fiz essa associação de como que as pessoas falam em relação à sexualidade.

Aliás, tudo que é voltado à sexualidade tem isso, essa carga de: “ah você não precisa falar sobre isso; é uma coisa da tua intimidade; não tem necessidade”. É, e é muito parecido. Tipo assim, “ah você não precisa falar sobre isso; é uma coisa da tua intimidade”. Só que quando você faz parte de uma coisa que é parte do padrão, por exemplo se você é hétero, você fala o tempo todo sobre sexualidade. Ou quando você não vive com hiv. O que eu quero dizer e que quando você não faz parte daquele grupo minoritário, você não precisa esconder alguma coisa que é da sua “intimidade”. Mas a partir do momento que você tá ali naquele grupo, aí fica nítido que você não precisa falar sobre. Em relação a essas questões, eu faço essa conexão.

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texto: guilherme freire, jornalista e ex-integrante.
ilustrações: neilton dos reis, editor.