em construção

águas, saberes, cidade_

em construção dessa edição é Matheus das Dores, ex-integrante do Coletivo Duas Cabeças e agora mestrando em  Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF, que relata um pouco da sua pesquisa e seus processos de investigação.

Com a preocupação de entender as demandas da atualidade sobre as questões ambientais, muitas pesquisas das humanidades têm voltado seu olhar para essa problemática. Não deixando de observar os movimentos das sociedades humanas em articulação com outros elementos naturais, sejam eles bióticos ou abióticos essas pesquisas procuram entender de forma ampla e diversa os caminhos que são construídos através da relação constituída a partir de um meio especifico. É sempre importante delimitar esse espaço com intuito de verificar que cada relação possui suas especificidades, mesmo que elas possam entregar ideias de um todo. Minha pesquisa se encontra nessa vertente de relações, especificamente entre humanos e a água.

 

Buscando entender os processos que produzem experiências, o olhar sobre o fenômeno da água problematiza as diversas relações que possuímos como sociedade humana com este recurso hídrico. Por isso, está pesquisa se dá um bairro da periferia de Juiz de Fora, onde se encontra uma abundancia de águas e nascentes, já que o local é propicio para esse fenômeno natural/social. No meio do bairro possui uma nascente, e essa é reconstituída historicamente através das narrativas das pessoas que ali vivem como importante artefato da memória coletiva.

 

Para além do engajamento das pessoas ao resgate da memória, a experiência entre a agua e os moradores produziu importantes questionamentos sobre nosso uso estatal desse fenômeno, destacando que a água é recurso escasso. Ela jorra nas torneiras de casa, e só nos damos conta da sua importância quando seca. Uma alternativa encontrada no bairro são os diversos poços artesianos e a própria água da nascente, que em muitos momentos foi o único recurso hídrico para alguns moradores. Sendo usados, inclusive, como principal fonte de renda, já que muitas mulheres vendiam sua mão de obra lavando roupas para algumas famílias da cidade de Juiz de Fora. Em outros casos, a água da nascente era usada para regar as plantações e matava a sede dos animais, que em muitos casos era a principal refeição dos moradores.

 

Por ser um bairro de periferia, como é sabido, os recursos públicos é na maioria das vezes escassos, então o lapso temporal, não mudou a relação que essas pessoas possuem com a água (apesar que em algumas casas os moradores preferiram fechar os poços artesianos). A época que eu iniciei a pesquisa era um longo período de chuva e em muitas cidades do Brasil os principais reservatórios de abastecimento das grandes cidades diminuíram drasticamente, e Juiz de Fora, foi fortemente atingido por esse fenômeno natural. A água da nascente passou a ser a principal fonte hídrica do bairro. Ao longo da pesquisa, à medida que a situação hídrica ia se estabilizando, os usos da mina d’água não diminuíram já que muitos moradores, não só do bairro, utilizam a mina para lavar seus carros, algumas crianças para brincar em tempos de calor e ciclistas e transeuntes para matar a sede e se refrescar. Por fim, um lava jato foi construído de forma precária ao lado da mina se aproveitando de sua água, já que um dos jovens moradores do bairro estava com dificuldade de conseguir um emprego.

 

A relação que nós seres humanos temos com água é muitas vezes balizada pela mediação do estado, e quando encontramos mesmo em uma realidade simultânea uma relação diferente, que coloca o aparato estatal com seus métodos e padrões de realização de politica pública em questionamento. Percebe-se que nossa relação com a natureza é estabelecida antropocentricamente, desconsiderando que os fenômenos naturais, a fauna, a flora e os demais seres abióticos, produzem relação direta com a nossa forma de ser e estar no mundo, e essa experiência produz cultura. Longe de determinar que a geografia e a biologia defina o comportamento humano, a reflexão é mais no sentido de perceber que somos seres relacionais e vivemos, produzimos e somos produzidos pela vida, mesmo inserido em contexto urbano.

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