podcast #6

agendas__

O podcast dessa edição não é gravado, mas escrito. É de Neilton dos Reis, que traz um pouco do seu trabalho sobre agenda de comunidades lgbtqia+.

Imagine um leque.

Um leque que é feito de varetas, como aqueles chineses e japoneses. Varetas, conectadas por fios que, em movimentos, produzem novos ventos.

Fiquemos com essa imagem para nossa metáfora da possível agenda lgbtqia+. E vamos desmembrá-la pra entender um pouco onde quero chegar.

São as varetas que permitem a sustentação. Elas dão direção ao leque e estão geralmente talhadas ou pintadas de muitas formas. Vêm em vários tamanhos, a depender do vento que queremos.

 

Às varetas eu associo as demandas que são de lgbtqia+. Consigo compilar seis: vitalidade, possibilidade, espacialidade, espiritualidade, proteção e celebração. São demandas que perpassam quase todas as pessoas e comunidades do mundo. Mas que, em se tratando de uma agenda lgbtqia+, têm suas singularidades.

 

A começar pela Vitalidade. O que quero dizer é a necessidade de que as capacidades de vida estejam plenamente supridas, no campo físico, mas também emocional e psicológico. O investimento que tivemos imediatamente após a epidemia de HIV/Aids — junto ao aumento de conhecimento médico em outras IST — é um exemplo clássico dentro dessa pauta. Mas, também, outras reivindicações: os direitos de utilização de nomes que não os de registro em prontuários; investigações diretamente pautadas em corpos de pessoas trans e travestis; ampliação de atendimentos especializados no Sistema Único de Saúde; etc.

Em sentido muito parecido, está o que chamo de Possibilidade. A isso estou relacionando a materialidade do quanto é possível gerir sua própria vida e suas comunidades — o que associaríamos de forma mais prática à renda. Então, em mundo Moderno que está mediado por relações econômicas capitalistas, como estar inseridas e com possibilidade de acesso a bens materiais (que deveriam e podemos construir pra que sejam bens comuns, mas que ainda não são)?

Outras buscas estão associadas: como sobreviver sendo pobres em um tempo e espaço que faz necropolítica de extermínio dos mais pobres? Conseguimos operacionalizar outras economias? Conseguimos tempo para pensar em outras economias quando temos que trabalhar para salários miseráveis enquanto tentamos sobreviver?

E, para continuar falando de vida, aproximo outro ponto: a Proteção. Esse foi um dos principais pontos de reivindicação que apareceu na Primeira Conferência Nacional LGBT e que estava presente desde antes. Proteção dos corpos que não se localizam no binário, proteção das práticas sexuais que não as heterossexuais, proteção das formas de sentipensar que não as coloniais, proteção dos jeitos de construir mundos que não o Moderno.

O mundo passa por séculos de colonialidade que violenta (e tenta exterminar) essas vidas, sentipensares, ideias, práticas que não agem como prevê a branquitude, a masculinidade, a heterossexualidade, a cisgeneridade, o cristianismo. Os modos são muitos: morte, violência psicológica, humilhação, espancamentos etc. O que faz com que a necessidade de proteção seja encarada por comunidades com urgência.

O quarto ponto que eu trago é o do Espaço. Desde muito tempo, dois processos atravessam lgbtqia+ no que tomo como um sentido espacial: a distribuição geográfica dessas nas cidades, ou seja, o quanto os corpos (comunitários) estão destinados às esquinas, aos guetos, aos espaços de socialização que estão nas margens, à noite; e a construção de certas zonas corporais como sujas, profanas, odiosas — em outras palavras, pensando o corpo como um espaço, há certas partes que ficam proibidas de serem mostradas e exploradas (o cu e a buceta, em especial).

O re-sentipensar desse regime de distribuição espacial se torna uma demanda lgbtqia+. Não que o objetivo seja deixar as margens ou a noite. Não necessariamente. Mas o objetivo é traçar rotas que sejam de movimentos fluidos, tanto da amplificação dos corpos, quanto das cidades.

Um pouco associado a isso, está o ponto de Celebração. As pessoas lgbtqia+, junto ao processo de marginalização geográfica, colocam em suas agendas uma demanda por momentos e espaços de celebração que não sejam violentados.

Está na história do movimento social e de grupos lgbtqia+ a organização em torno de sociabilidades que envolvam isso: festas, rolês, orgias. São movimentações que já acontecem, sim, mas às escondidas, dentro de alguns armários e de forma que ou medo esteja circulando ou se tenha a necessidade de enfrentamento a qualquer momento. E isso causa impacto tanto no ato celebrativo em si, quanto na própria organização comunitária.

Por fim, o último ponto que trago é o da Espiritualidade. A experiência da vida em uma dimensão que não esteja encerrada na racionalidade Moderna entra nas agendas lgbtqia+ quando entendemos a pluralidade das formações por afinidade. Existem pessoas lgbtqia+ que não percebem, enquanto necessidade, uma vivência espiritualista, nem as elaborações que isso pode trazer. Entretanto, isso não é regra e não pode ser operacionalizado como se fosse.

Há comunidades de afinidades que são lgbtqia+, por exemplo, que se constroem no âmbito de uma experiência espiritualista. Quando acontece, essa reivindicação se expressa de forma mais intensa e urgente. É necessário que seja possível uma pessoa lgbtqia+ se entenda enquanto um ser também espiritual e que tenha a oportunidade de vivenciar esse entendimento sem que isso seja colocado à prova. 

 

Seguindo a minha metáfora do leque. Pensando em vitalidade, possibilidade, espacialidade, espiritualidade, proteção e celebração como as varetas que vão dar rigidez e armação, há outros elementos que vão atravessar todas essas varetas e dar conexão e movimento entre elas. É o que vou chamar de fios.

Os fios passam pelas varetas, as amarram, permitem o abrir e fechar e articulam o leque. Elas tencionam as varetas a se organizarem em movimentos e posições próprias de um leque. Nessa metáfora serão, então, as preocupações, os cuidados, as dinâmicas que tornam as demandas algo da ordem do comum às comunidades lgbtqia+. Se as demandas-varetas estão presentes em vários grupos e comunidades, é a associação com os fios-dinâmicas que darão o tom de uma agenda lgbtqia+. 

São nossos fios: autonomia, subversão, alianças e gozo. A eles, então!

A começar pela Autonomia. Em comunidades lgbtqia+ que buscam suprir essas demandas que te falo agora a pouco, é preciso que se construa processos de autonomia. Não será sendo sempre tuteladas por um Estado — com financiamentos dele ou de iniciativas privadas — que conseguiremos produzir outros mundos.

Bastante aliado a isso, está um outro fio que é o da Subversão. Quando penso nas varetas-demandas do nosso leque, percebo que não há também uma forma pré-determinada de cumpri-las. É uma agenda, sim, mas com a abertura às formas de criar. A subversão me traz isso, em um primeiro momento.

E logo depois me insere num outro sentido: o de subverter mesmo. Aquele ligado à perversão moral e à destruição de ideias cristalizadas. Essa subversão, da qual pessoas lgbtqia+ são acusadas há tanto tempo, eu entendo como possível articuladora para operacionalizar as demandas — e, junto disso, questionar e ressignificar o que entendemos como demanda e elas em si mesmas.

Espiritualidade pode ser subvertida em orgias. Celebração pode ser subvertida em Proteção. Vitalidade pode ser subvertida em formas não-tradicionais de cuidado. Espaço pode ser subvertido em outros modos de se entender e se locomover entre o público e o privado. As subversões nos ajudam nas demandas questionando a moralidade que as regram e, assim, podendo criar mundos que não estejam necessariamente atravessados por elas.

O terceiro fio que entrelaço é o das Alianças. Alianças como forma de tanto articular demandas entre si, quanto de oportunizar a rede entre comunidades para que as demandas sejam cumpridas.

Essa articulação de demandas entre si numa agenda é um movimento esperado no sentido da descolonização, uma vez que a vida não está segmentada em contornos tão bem definidos. Celebração e Vitalidade se confundem, ainda mais quando demandamos Espiritualidade. Proteção também se mistura à relação com Espaço, com a Vitalidade e com a Possibilidade de acesso. Construir agenda é apenas reconhecer frentes, mas sabendo que a luta não se constrói de forma separada. As alianças se colocam no processo para fortalecer esse entendimento.

Por fim, como último fio, coloco o Gozo. Algo que articula as demandas e faz com que a dinâmica em operá-las não seja de uma forma triste, melancólica ou que se referencie à morte. Não. As demandas são construídas a partir de faltas, sim, mas significam projeções de mudança. São aquilo que comunidades buscam, constroem, lutam. E esse processo tem de ser feito com prazer.

É gozando — na vida, nas celebrações, nos espaços, nos sexos — que se pode fazer movimentar as varetas num abrir e fechar e abrir e fechar e abrir e fechar que seja prazeroso para as pessoas e comunidades. O prazer pode se colocar como dinâmica, como forma de operar (e não ser alocado apenas às horas vagas e aos lugares e momentos escondidos).

 

A mão que pega

O leque é manuseado.

Uma mão o pega e o faz movimentar.

Ou várias mãos. Grupos, movimentos, populações inteiras podem pegar um leque.

Leques-agendas, também.

Para ir terminando áudio-podcast-Escrito, acho que cabe eu voltar à reflexão que iniciei antes. Falar em comunidades pra quê? Não basta falar que pessoas ou populações lgbtqia+ tem essas demandas e essas dinâmicas?

Bom, talvez sim.

Mas o que venho defender é que a forma de lidar com essas demandas e essas dinâmicas só é assim porque se configura em fazer comunidades lgbtqia+. A forma que se pega no leque, a forma que se faz agendas é a forma que se faz comunidades. Comunidades de afinidades e comunidades de mudança que estão associadas às ideias de descolonização e construção de Bons Conviveres.

 

Mas tem mais uma coisa.

 

É que, além do movimento de abrir e fechar que os fios provocam nas varetas, há o movimento principal do leque: o ventanear. Criar vento. Movimentar ares. Agitar aquilo que estava parado. Refrescar.

Ou ainda: lutar. Leque que pode ser usado como arma, que é extensão de corpos.

Leques não se movem sozinhos. Os movimentos não estão dados por formas sobrenaturais. É preciso uma mão, um braço, um tronco, um cu, uma perna, um chão que o movimente, que o desloque no ar para produzir ar em movimento.

 

Ventanear é aquilo que podemos fazer com as agendas.