acadêmicaH #5

duas vidas, um livro e muita bruxaria_

quem está no acadêmicaH dessa edição é Marina Cápua Nunes, que desenvolveu um trabalho de dissertação com Bruna Leonardo, teve sua vida atravessada por esse encontro e agora nos conta disso.

Assim que defendi o mestrado, um amigo questionou-me: Porque não faz de sua dissertação um livro?
Seria de se esperar que buscando a vida acadêmica e renegando minha trajetória de professora de História, de uma vida em torno de meu pai e minha mãe, em minha pequena grande Alegre, poderia eu colher os louros de uma das tarefas que dá sentido à vida: escrever um livro.

Contudo, minha pesquisa de mestrado não dizia sobre mim, e a cada dia que se aproximava o prazo para concluí-la me questionava se era digna de tanta responsabilidade. Enfim, parecia desafiador e promissor. No início, foi tornando-se cada vez mais pesado e solitário o processo de escrita, ainda mais que cabia a mim tornar pública a trajetória de uma militante trans na cidade de Juiz de Fora.

Senti medo de minha pequenez diante da coragem de Bruna Leonardo e da pressão do movimento trans por espaço e voz na academia, e em resposta a esse meu amigo escrevi\disse: “espero que ela mesma escreva seu próprio livro e contribuirei no que for preciso”.

Assim, se eu era pretensiosa e sonhadora antes de conhecer Bruna, ao longo de nossa convivência percebi o quanto eu era ignorante e mesquinha. Sendo clichê: a academia subiu à minha cabeça. Conhecer de perto a trajetória de Bruna me deixava indignada por várias formas de preconceito que ela enfrentava, porém, ao mesmo tempo, a coragem que ela tinha no enfrentamento ao longo dos anos me inspirava e me causava mais responsabilidade.

A primeira vez que a vi foi na II Semana da Diversidade Sexual e de Gênero na UFJF, em fins de 2011. Sempre houve uma grande distância entre mim e ela: eu era a acadêmica de uma universidade pública, com uma bolsa de iniciação científica, com uma expressão de gênero seguindo a cisheteronormatividade; ela desistiu de dar continuidade aos estudos no nível superior em virtude do ambiente hostil que fora as instituições de ensino básico pelas quais passou e estava pela primeira vez saindo de casa com uma roupa emprestada de sua mãe, que considerava feminina e apropriada para o ambiente “formal” da universidade.

De lá para cá, conheci sua saga para inserir-se no processo transexualizador oferecido pelo SUS, sua interpelação à justiça pela retificação de seu nome em seus documentos de registro civil, sua entrada na militância e sua apropriação de identidade. Tudo isso envolveu violência à sua autopercepção em alguns âmbitos do atendimento do SUS, por não respeitarem o seu gênero feminino, chamando-a pelos artigos e pronomes masculinos e questionarem sua feminilidade, requerendo perícias médicas invasivas que usurpavam-na de sua autonomia. Como não bastasse, ela se envolveu em muita exposição e risco à retaliação física por suas posturas diante de manifestações políticas representando o Coletivo Duas Cabeças, as quais ocorreram, inclusive, na Câmara Municipal e diante do Fórum.

Ninguém deveria passar por isso para ter o direito de ser quem se é, não é questão de ser uma heroína, é um processo doloroso. É um legado radical que ela deixa pro mundo marcado em sua pele, ao qual devemos respeito.

Levando a sério este respeito que tenho por ela, o processo de pesquisa que se constituiu também em nossa amizade de grande acolhimento para mim, fez com que eu fosse afetada por sua trajetória que eu transformasse e questionasse minha visão de mundo e me fizesse pensar que definitivamente não sou o suficiente mesmo para tomar o lugar dela no mundo.

Entretanto, aqui no meu lugar de minha posição privilegiada socialmente como mulher cisgênera e acadêmica, eu fui afetada pela potencialidade da vida de Bruna que resultou em um abalado nas estruturas sociais de privilégio e poder. Pois, afinal, Bruna fez uma bruxaria de origem militante ancestral para que eu, uma mulher cisgênera e de uma pequena cidade do interior, tornar-se a etapa de sua vida mais significativa, o mestrado, um registro da trajetória de vida de uma “mulher trans, feminista, militante, guerreira, descendente de índios e com orgulho de ter sangue baiano correndo nas veias”.

Portanto, de toda forma, transformar a dissertação sobre a trajetória de Bruna em livro não será de todo modo um feito exclusivamente meu, e nem seria uma forma de redenção minha e nem serei egoísta de me paralisar pelo medo de tamanha responsabilidade. Tenho é que me render ao feitiço que de certo fui tomada. O feitiço da capacidade de subversão do poder da militância trans de que o legado de Bruna descende. Enfim aceitei, tornei-me mero instrumento de enunciação de sua força: o livro será feito, como sempre foi a vontade de Bruna.

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